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16 novembro 2025

Apologia de Sócrates

Lições para o Maçom Contemporâneo
Sócrates. Copilot.

A Apologia de Sócrates, escrita por Platão, é um dos registros mais marcantes da filosofia ocidental. Trata-se do discurso de defesa proferido por Sócrates em seu julgamento, no ano de 399 a.C., quando foi acusado de corromper a juventude e de não acreditar nos deuses reconhecidos pela cidade de Atenas. Mais do que um texto jurídico, a obra é uma profunda declaração de princípios, revelando a postura ética e intelectual de um homem que dedicou sua vida à busca da verdade e à melhoria moral da sociedade.

Segundo Reale (2004, p. 89), "a Apologia é o testemunho da integridade moral de Sócrates, que preferiu morrer a renunciar à sua missão filosófica". A obra se divide em três partes: a defesa das acusações, a proposta de pena e a despedida. Cada uma delas revela facetas distintas de Sócrates, desde sua habilidade argumentativa até sua coragem moral diante da morte.

A Defesa

Na primeira parte, Sócrates rebate tanto as acusações recentes quanto as antigas. Ele nega ter se ocupado de "coisas celestes e subterrâneas" ou de ensinar a fazer a "razão mais fraca parecer a mais forte" (PLATÃO, s.d.). Em vez disso, explica que sua missão sempre foi questionar e expor a falsa sabedoria das pessoas - tarefa que inevitavelmente lhe trouxe inimizades.

Sócrates recorre ao Oráculo de Delfos, que afirmara não haver homem mais sábio do que ele. Segundo Jaeger (2001, p. 143), "Sócrates interpreta o oráculo como um chamado à investigação filosófica, à busca incessante pela verdade". A partir dessa compreensão, constrói sua sabedoria socrática, baseada no conhecimento da própria ignorância como ponto de partida para o conhecimento, pois ele sabia que nada sabia.

Ele também se defende das acusações de Meleto, mostrando que, se corrompesse os jovens, o faria de forma involuntária — e, nesse caso, mereceria instrução, não punição. Além disso, desmonta a alegação de ateísmo, pois, embora questione certas concepções religiosas, acredita em “seres divinos” (daimons) e afirma que sua missão é dada por Deus: estimular as pessoas a cuidarem da alma e a colocarem a virtude acima de riquezas e status (PLATÃO, s.d.).

A Proposta de Pena

Após ser considerado culpado pela maioria dos juízes, Sócrates mantém a firmeza. Com ironia, afirma que, pelo serviço prestado à cidade, deveria ser recompensado e sustentado no Pritaneu — honra reservada a campeões olímpicos e heróis. Segundo Nunes (2010, p. 57), "a proposta de Sócrates revela sua convicção de que a filosofia é um bem público, essencial à vida da pólis".

Recusa a ideia de exílio, pois, onde quer que estivesse, continuaria filosofando. Para ele, abandonar essa prática seria desobedecer ao chamado divino que orientava sua vida. Embora inicialmente sugerisse pagar 1 mina como multa, aceita a proposta de seus amigos Platão, Críton e outros, oferecendo 30 minas como alternativa (PLATÃO, s.d.).

A Despedida

Na parte final, Sócrates se dirige primeiro aos que o condenaram, advertindo-os de que sua morte não silenciaria as críticas à cidade — pelo contrário, outros surgiriam para cobrar a mesma postura moral que ele exigia. Aos que o absolveram, explica que o “sinal divino” que sempre o guiava não se manifestou durante o julgamento, indicando que a morte não era um mal.

Reflete sobre a natureza da morte, sugerindo dois possíveis cenários: um sono profundo e sem sonhos, que traria descanso total, ou uma mudança de lugar, onde poderia dialogar com heróis e sábios do passado. Como afirma Platão (s.d.),  "ninguém pode fazer mal a um homem bom, nem em vida nem depois da morte", pois o valor de uma vida está em vivê-la justamente.

Ideias Centrais

  • Missão filosófica: questionar crenças, examinar a vida e buscar a virtude.
  • Sabedoria socrática: reconhecer a própria ignorância como caminho para o conhecimento.
  • Coragem moral: manter a integridade mesmo diante da morte (NUNES, 2010).
  • Crítica à retórica vazia: rejeição a apelos emocionais e manipulação em favor da verdade.
  • Concepção da morte: aceitação do desconhecido, considerando que ele pode ser um bem.

Conclusão

A Apologia de Sócrates é mais do que um registro histórico de um julgamento; é um manifesto atemporal sobre a importância da integridade, da reflexão crítica e da busca pelo sentido da vida. Ao se recusar a comprometer seus princípios para evitar a morte, Sócrates nos lembra que a verdadeira coragem não está em viver a qualquer custo, mas em viver fiel àquilo que se acredita ser justo.

Como resume Platão (s.d.), "a vida não examinada não vale a pena ser vivida". Ler a Apologia de Sócrates é confrontar-se com nossas próprias certezas e lembrar que, mais do que respostas prontas, o que nos mantém vivos intelectualmente são as perguntas que ousamos fazer.

Maria Luiza Menquique

Referências Bibliográficas

JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

NUNES, Benedito. O conhecimento filosófico. São Paulo: Ática, 2010.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução eletrônica. Disponível em: <https://www.acropolis.org.br>. Acesso em: 19 out. 2025.

REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 2004.

03 novembro 2025

O que Sócrates Pode nos Ensinar?

Reflexão, Liberdade e Busca Pela Verdade

Sócrates. Meta AI.

"A vida que não é examinada não vale a pena ser vivida" — Sócrates, em A Apologia.

A Maçonaria é, antes de tudo, uma jornada de transformação ética, intelectual e espiritual. E poucos personagens da história da filosofia encarnam tão bem esses ideais quanto Sócrates. Em A Apologia de Sócrates, escrita por Platão, encontramos não apenas a defesa de um homem injustamente acusado, mas um verdadeiro tratado sobre coragem moral, liberdade de pensamento e compromisso com a verdade — valores que ressoam profundamente com a essência da Maçonaria. Por isso, A Apologia de Sócrates é uma das primeiras leituras recomendadas às Aprendizes, que são convidadas a refletir sobre como aplicar os ensinamentos socráticos em suas próprias vidas.

Sócrates foi condenado à morte por "corromper a juventude" e "não acreditar nos deuses da cidade". Na verdade, seu "crime" foi pensar livremente e incentivar outros a fazerem o mesmo. Na Maçonaria, também estimulamos as mulheres a pensarem livremente, a se conhecerem por meio de estudos, leituras e questionamentos. Encorajamos a rejeição de verdades prontas, promovendo a investigação, reflexão e construção de um entendimento próprio. Assim como Sócrates não recuou diante da injustiça, nós também não devemos recuar em nossa busca pela verdade — mesmo que ela nos confronte ou nos cause dor. 

Temos o costume de acreditar nas pessoas mais próximas, mas é preciso duvidar para encontrar a verdade. É preciso coragem para duvidar dos outros e até de nós mesmas, das nossas crenças mais arraigadas, pois aquilo que entendemos como real pode ser apenas uma imagem distorcida da realidade — uma visão filtrada pelas lentes que estamos acostumadas a usar. Lentes invisíveis, mas poderosas, que moldam nossos comportamentos, emoções e reações.

Quando tiramos a lente, matamos o nosso conhecido "eu interior". Às vezes, é necessário deixar morrer quem fomos, para que possamos renascer como quem realmente somos. Esse processo exige entrega, humildade e força. Mas é nele que reside a verdadeira liberdade: a liberdade de ser, de pensar, de sentir — sem amarras, sem ilusões. Como disse Sócrates: "Não é por temor da morte que um homem deve agir, mas por temor de cometer injustiça." (PLATÃO, 2001, p. 45). E há uma forma de injustiça muito danosa: aquela que praticamos contra nós mesmas, quando negamos nossa essência ou silenciamos nossa voz interior.

A máxima socrática "Conhece-te a ti mesmo" é um dos pilares da iniciação maçônica. Sócrates não se dizia sábio — pelo contrário, afirmava que sua sabedoria consistia em reconhecer sua ignorância. Esse é o ponto de partida para a verdadeira sabedoria: "Sei que nada sei" (PLATÃO, 2001, p. 38). Incentivamos nossas irmãs a buscar o conhecimento continuamente, a questionar suas crenças, a explorar outras formas de pensar, a ver o outro lado da moeda, a conhecer outras culturas e períodos históricos. Esse mergulho no "todo" amplia a consciência e fortalece a identidade.

Toda iniciação é um convite à introspecção — não apenas da irmã que passa pelo ritual, mas de todas as que dele participam, com carinho e dedicação, trabalhando nos preparativos e nos bastidores. Ao participarmos de uma Cerimônia Magna ou de uma Oficina, temos a chance de olhar para dentro de nós mesmas. E em cada símbolo, encontramos uma chave capaz de abrir as portas do nosso próprio templo interior.

Sócrates acreditava que a liberdade de pensar era um dever moral. Ele não impunha verdades — fazia perguntas. E é justamente isso que propomos: nada de dogmas, mas reflexão; nada de respostas prontas, mas caminhos de busca. "Sou como um tábano (mutuca) que desperta o cavalo adormecido da cidade" (PLATÃO, 2001, p. 29).

Ele via sua vida como uma missão. Não buscava glória, riqueza ou poder. Seu propósito era servir à verdade e ao bem comum. De forma semelhante, a Maçonaria tem como missão promover o desenvolvimento de mulheres livres e de bons costumes, conscientes de que o verdadeiro valor não está no cargo que ocupam, mas na forma como exercem a liderança — com ética, humildade e compromisso com o bem comum. Mulheres que não buscam prestígio em cargos, nem se deixam inebriar pelo poder que lhes é temporariamente confiado. Queremos que estejam conscientes de que não são o cargo, mas estão no cargo — e, por isso, devem estar comprometidas com a construção de uma sociedade mais fraterna. Não é o título, a comenda ou a posição que importam, mas sim o exemplo que é dado, dentro e fora dos templos.

Por ser a Maçonaria um espaço de crescimento, estudo, liberdade e ação, ela agrega mulheres livres e de bons costumes que, como Sócrates, não têm medo de pensar, de questionar e de transformar, pois ela é feita de irmandade, luz e coragem

Se desejamos descobrir algo em nós mesmas e no mundo, a Maçonaria é um caminho e, como Sócrates, podemos começar com uma simples pergunta: Quem somos?

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2001.

REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga: vol. I – Dos Pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Loyola, 2003.

Maçonaria Feminina: O Despertar da Consciência

Além das Ideologias Recentemente um homem nos enviou uma mensagem (via WhatsApp) que, entre outras frases, escreveu: "É que eu vi que...