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| Sócrates. Copilot. |
A Apologia de Sócrates, escrita por Platão, é um dos registros mais marcantes da filosofia ocidental. Trata-se do discurso de defesa proferido por Sócrates em seu julgamento, no ano de 399 a.C., quando foi acusado de corromper a juventude e de não acreditar nos deuses reconhecidos pela cidade de Atenas. Mais do que um texto jurídico, a obra é uma profunda declaração de princípios, revelando a postura ética e intelectual de um homem que dedicou sua vida à busca da verdade e à melhoria moral da sociedade.
Segundo Reale (2004, p. 89), "a Apologia é o testemunho da integridade moral de Sócrates, que preferiu morrer a renunciar à sua missão filosófica". A obra se divide em três partes: a defesa das acusações, a proposta de pena e a despedida. Cada uma delas revela facetas distintas de Sócrates, desde sua habilidade argumentativa até sua coragem moral diante da morte.
A Defesa
Na primeira parte, Sócrates rebate tanto as acusações recentes quanto as antigas. Ele nega ter se ocupado de "coisas celestes e subterrâneas" ou de ensinar a fazer a "razão mais fraca parecer a mais forte" (PLATÃO, s.d.). Em vez disso, explica que sua missão sempre foi questionar e expor a falsa sabedoria das pessoas - tarefa que inevitavelmente lhe trouxe inimizades.
Sócrates recorre ao Oráculo de Delfos, que afirmara não haver homem mais sábio do que ele. Segundo Jaeger (2001, p. 143), "Sócrates interpreta o oráculo como um chamado à investigação filosófica, à busca incessante pela verdade". A partir dessa compreensão, constrói sua sabedoria socrática, baseada no conhecimento da própria ignorância como ponto de partida para o conhecimento, pois ele sabia que nada sabia.
Ele também se defende das acusações de Meleto, mostrando que, se corrompesse os jovens, o faria de forma involuntária — e, nesse caso, mereceria instrução, não punição. Além disso, desmonta a alegação de ateísmo, pois, embora questione certas concepções religiosas, acredita em “seres divinos” (daimons) e afirma que sua missão é dada por Deus: estimular as pessoas a cuidarem da alma e a colocarem a virtude acima de riquezas e status (PLATÃO, s.d.).
A Proposta de Pena
Após ser considerado culpado pela maioria dos juízes, Sócrates mantém a firmeza. Com ironia, afirma que, pelo serviço prestado à cidade, deveria ser recompensado e sustentado no Pritaneu — honra reservada a campeões olímpicos e heróis. Segundo Nunes (2010, p. 57), "a proposta de Sócrates revela sua convicção de que a filosofia é um bem público, essencial à vida da pólis".
Recusa a ideia de exílio, pois, onde quer que estivesse, continuaria filosofando. Para ele, abandonar essa prática seria desobedecer ao chamado divino que orientava sua vida. Embora inicialmente sugerisse pagar 1 mina como multa, aceita a proposta de seus amigos Platão, Críton e outros, oferecendo 30 minas como alternativa (PLATÃO, s.d.).
A Despedida
Na parte final, Sócrates se dirige primeiro aos que o condenaram, advertindo-os de que sua morte não silenciaria as críticas à cidade — pelo contrário, outros surgiriam para cobrar a mesma postura moral que ele exigia. Aos que o absolveram, explica que o “sinal divino” que sempre o guiava não se manifestou durante o julgamento, indicando que a morte não era um mal.
Reflete sobre a natureza da morte, sugerindo dois possíveis cenários: um sono profundo e sem sonhos, que traria descanso total, ou uma mudança de lugar, onde poderia dialogar com heróis e sábios do passado. Como afirma Platão (s.d.), "ninguém pode fazer mal a um homem bom, nem em vida nem depois da morte", pois o valor de uma vida está em vivê-la justamente.
Ideias Centrais
- Missão filosófica: questionar crenças, examinar a vida e buscar a virtude.
- Sabedoria socrática: reconhecer a própria ignorância como caminho para o conhecimento.
- Coragem moral: manter a integridade mesmo diante da morte (NUNES, 2010).
- Crítica à retórica vazia: rejeição a apelos emocionais e manipulação em favor da verdade.
- Concepção da morte: aceitação do desconhecido, considerando que ele pode ser um bem.
Conclusão
A Apologia de Sócrates é mais do que um registro histórico de um julgamento; é um manifesto atemporal sobre a importância da integridade, da reflexão crítica e da busca pelo sentido da vida. Ao se recusar a comprometer seus princípios para evitar a morte, Sócrates nos lembra que a verdadeira coragem não está em viver a qualquer custo, mas em viver fiel àquilo que se acredita ser justo.
Como resume Platão (s.d.), "a vida não examinada não vale a pena ser vivida". Ler a Apologia de Sócrates é confrontar-se com nossas próprias certezas e lembrar que, mais do que respostas prontas, o que nos mantém vivos intelectualmente são as perguntas que ousamos fazer.
Maria Luiza Menquique
Referências Bibliográficas
JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
NUNES, Benedito. O conhecimento filosófico. São Paulo: Ática, 2010.
PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução eletrônica. Disponível em: <https://www.acropolis.org.br>. Acesso em: 19 out. 2025.
REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 2004.

