03 maio 2026

A Mulher na Maçonaria

Relato de uma aprendiz

Mulheres na Maçonaria
Apresento este texto com o coração ainda em lapidação. Como Aprendiz, compreendo que cada estudo não é apenas um exercício intelectual, mas um espelho que revela quem somos e quem estamos nos tornando. Ao refletir sobre a mulher na Maçonaria  no mundo, no Brasil e no Estado de São Paulo  percebo que essa história não está distante de mim. Ela ecoa em minha própria jornada e se manifesta como um processo contínuo de renascimento interior.

A Maçonaria moderna, organizada formalmente em 1717 com a fundação da United Grand Lodge of England, nasceu em um contexto histórico marcado por estruturas sociais específicas. Contudo, a essência iniciática jamais esteve limitada às circunstâncias de sua época. A busca pela Luz, pelo aperfeiçoamento moral e pela construção do Templo Interior pertence àqueles que atendem ao chamado da transformação.

E esse chamado também foi e é ouvido por mulheres.

Ao longo dos séculos, mesmo quando não estavam formalmente inseridas nas estruturas institucionais, mulheres mantiveram vivo o anseio pelo crescimento espiritual e intelectual. No século XIX, a fundação da Le Droit Humain representou um marco ao admitir homens e mulheres sob os mesmos princípios iniciáticos. Posteriormente, ordens exclusivamente femininas, como a The Order of Women Freemasons, consolidaram espaços próprios de trabalho e aprofundamento simbólico.

No Brasil, onde a Maçonaria se estruturou tradicionalmente por meio de potências como o Grande Oriente do Brasil (GOB) (Lojas Masculinas), a presença feminina ganhou institucionalidade com a fundação da Grande Loja Maçônica Feminina do Brasil. Em São Paulo, essa atuação tornou-se viva e consistente, dialogando com outras potências, como o Grande Oriente de São Paulo (Lojas Masculinas) e o Grande Oriente Maçônico Pan-Americano (Lojas Mistas e Femininas), demonstrando que diferentes expressões podem compartilhar os mesmos ideais de Verdade, Moralidade e Fraternidade.

Entretando, quanto mais estudo essa trajetória, mais compreendo que o ponto central não está nas datas, mas no simbolismo.

A presença da mulher na Maçonaria não é apenas um fato histórico  é uma expressão do renascimento iniciático. A Iniciação não concede privilégios; ela impõe responsabilidade. Não nos eleva acima de ninguém; ela nos conduz para dentro de nós mesmas. O verdadeiro desafio não é ocupar um espaço externo, mas sustentar o espaço interior que a Ordem exige. E esse enfrentamento começa no SILÊNCIO.

Compreendo o processo iniciático como um ciclo simbólico de morte e renascimento. Reconhecer inseguranças, enfrentar vaidades e admitir limitações não foi simples. Houve momentos em que precisei silenciar impulsos, controlar a ansiedade e aceitar que ainda estou em construção. Esse confronto com minhas próprias sombras revelou-se doloroso  mas profundamente libertador.

O fogo iniciático não queima para destruir, queima para purificar. Assim como na tradição alquímica, o que é denso se separa do que é essencial. O que é ilusório se desfaz para que o que é verdadeiro permaneça.

É impossível não recordar a imagem da ave que renasce das próprias cinzas. A Fênix não simboliza apenas resistência, mas transformação consciente. Ela aceita o fogo como instrumento de renovação. Assim também compreendo minha caminhada na A.'.R.'.L.'.S.'.F.'. Fênix Nut (fundada em 27/11/2013) em que o fogo não consome quem sou, mas purifica aquilo que preciso aperfeiçoar.

A Pedra Bruta que me foi confiada não está fora de mim; ela é meu próprio caráter. O Malho representa a minha vontade. O Cinzel, meu discernimento. Mas nenhuma ferramenta produz forma sem disciplina, humildade e constância. A construção é lenta  e deve ser.

Também compreendo que a mulher traz à Maçonaria não uma oposição, mas uma complementaridade. Somos chamadas a integrar firmeza e sensibilidade, razão e intuição, disciplina e acolhimento. A verdadeira força não precisa ser ruidosa; ela pode ser serena. A verdadeira autoridade nasce do equilíbrio interior.

Talvez a questão mais profunda não seja se a mulher pode ou não pode ocupar espaços na Maçonaria, mas se estamos verdadeiramente preparadas para ocupar o espaço interior que a Iniciação nos exige.

A Luz que buscamos não é o brilho exterior. É a claridade de consciência que se manifesta na prudência das palavras, na coerência das atitudes e no domínio das paixões. Ela não nos torna perfeitas, mas mais conscientes de nossas imperfeições.

Como Aprendiz, sei que meus passos ainda são iniciais. Ainda erro. Ainda me percebo impaciente em alguns momentos. Ainda tenho muito a lapidar. Mas hoje compreendo que fazer parte dessa corrente de mulheres que escolheram trabalhar silenciosamente por sua própria evolução não é apenas uma conquista  é um compromisso.

Se a história da mulher na Maçonaria é marcada por conquistas institucionais, sua dimensão mais profunda é espiritual. É a história de consciências que aceitaram atravessar o fogo da transformação. Que eu saiba honrar essa trajetória com estudo constante, domínio de mim mesma e fidelidade aos princípios que abracei.

Se há renascimento, que ele seja consciente.
Se há fogo, que ele seja purificador.
Se há Luz, que ela comece  e permaneça  dentro de mim.

Michelle Barroso Lima

Referências Bibliográficas

ANDERSON, James. Constituições dos Franco-Maçons. Londres, 1723.

CASTELLANI, José. História do Grande Oriente do Brasil. Brasília: Grande Oriente do Brasil, 1993.

MACKEY, Albert G. Enciclopédia da Maçonaria. São Paulo: Madras, 2008.

LE DROIT HUMAIN – Ordem Maçônica Mista Internacional. História e princípios da Ordem. Disponível em: https://www.droit-humain.org

ORDER OF WOMEN FREEMASONS. História da Maçonaria Feminina no Reino Unido. Disponível em: https://www.owf.org.uk

GRANDE LOJA MAÇÔNICA FEMININA DO BRASIL. História e estrutura da Maçonaria Feminina no Brasil. Disponível em: https://xn--maonaria-luxfeminae-6xb.com.br/ 


08 fevereiro 2026

A Maçonaria, a Física Quântica e a Neurociência

Entre Ritos e Ciência

Imagem criada por IA Gemini.
A mulher na Maçonaria Feminina estuda, além de textos filosóficos, herméticos, egípcios, teológicos etc., a cabala, alquimia e outros conhecimentos ocultos que são importantes para harmonizar o ser humano com a natureza e despertar a espiritualidade e o crescimento pessoal. Embora com origens diferentes, todas as práticas espirituais fazem uso de símbolos e ritos como instrumentos de transformação interior.

Por aceitar pessoas com diversas crenças, não importando a religião que seguem, a Maçonaria proporciona, em suas Oficinas, uma troca muito rica de conhecimentos provenientes de culturas muito diversificadas. Aprender a respeitar e aceitar a diversidade de pensamentos, teorias, crenças, rituais e práticas espirituais contribui muito para o amadurecimento e para a evolução espiritual de cada uma de nós.

A ritualística maçônica possui uma riqueza simbólica e uma estrutura iniciática que podem ser vistas como metáforas para processos que, atualmente, a ciência começa a desvendar. A física quântica e a neurociência, embora distantes no método, convergem com a Maçonaria em um ponto essencial: a transformação da consciência e a compreensão de quem somos

Na física quântica "o ato de observar altera o estado quântico, revelando que a consciência participa da construção da realidade" (NEY, 2025, p. 2). Em cerimônias maçônicas, a iniciada é convidada a "ver" sob uma nova luz, a sair da escuridão para a claridade do conhecimento, — lembrando o Mito da Caverna de Platão. Esse movimento simbólico espelha a ideia quântica de colapso da função de onda, em que a potencialidade se torna realidade quando há percepção. Assim, aquilo em que colocamos nossa atenção, nossos pensamentos é o que, de fato, se materializa em nossa vida (segundo o documentário O Segredo). 

Do ponto de vista da neurociência, estudos apontam que "ritos e símbolos ativam redes neurais ligadas à emoção, memória e tomada de decisão (TÃTÃRANU; RIZEA, 2025, p. 5). Cada gesto, palavra e objeto ritual cria âncoras cognitivas que reforçam valores e comportamentos. O cérebro, plástico e adaptável, responde ao ambiente simbólico, consolidando novas conexões como se a iniciada estivesse literalmente "reprogramando" sua mente para padrões mais elevados de ética e fraternidade. 

Assim, os rituais maçônicos não são apenas cerimônias: são experiências imersivas que operam em níveis sutis, alinhando intenção, percepção e emoção. A física quântica nos lembra que a realidade é interdependente; a neurociência confirma que a mente é moldável. A maçonaria, com seus símbolos e graus, oferece um caminho que integra essas descobertas a uma prática ancestral, possibilitando a construção do ser humano como templo vivo.

Sandra Cristina Pedri
Pós-graduada em Neurociência, Psicologia Positiva e Mindfulness (Puc-Campinas)

Referências Bibliográficas

NEY, Alyssa. Do our observations make reality happen? Nature, 09 de jun. 2025.

PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian, 2007.

TÃTÃRANU, Ligia Gabriela, RIZEA, Radu Eugen. Neuroplasticity and nervous system recovery: cellular mechanisms, therapeutic advances, and future prospects. Brain Sciences, v. 15, n. 4, abr. 2025.

01 fevereiro 2026

Maçonaria Feminina: O Despertar da Consciência

Além das Ideologias

Recentemente um homem nos enviou uma mensagem (via WhatsApp) que, entre outras frases, escreveu: "É que eu vi que vocês são empoderadas feministas".

A Maçonaria Feminina, mais especificamente, a FÊNIX NUT, não é feminista, pois o feminismo é uma ideologia e não incentivamos a adesão à qualquer tipo de ideologia. É preciso clareza e cuidado ao rotular movimentos femininos sob o manto do feminismo. 

Maçonaria Feminina e o feminismo são caminhos distintos. Enquanto feminismo muitas vezes foca em pautas sociopolíticas e de confronto, a Maçonaria Feminina foca na evolução do ser humano.

O Conhecimento como Escudo

Nosso objetivo é o aprimoramente constante e o crescimento pessoal e social através da sabedoria, adquirida pelo estudo e pelo conhecimento. Acreditamos que uma mulher instruída e consciente de si mesma é livre de amarras invisíveis. Buscamos, portanto, o conhecimento para que a mulher:

·        Cultive a autonomia espiritual e intelectual: que ela deposite sua confiança na própria consciência e no discernimento pessoal, encontrando sua própria luz em vez de seguir cegamente lideranças ou promessas externas.

·       Exerça o equilíbrio e a razão: onde há clareza mental, floresce o livre-pensar. Priorizamos a lucidez para que o espírito permaneça livre de dogmas e aberto à verdade.

·       Promova a fraternidade e o respeito: a verdadeira união nasce da compreensão. Valorizamos a pluralidade de ideias, entendendo que a diferença é uma oportunidade de aprendizado e um caminho para o fortalecimento comum.

A Essência Feminina em Equilíbrio

Defendemos o resgate da mulher feminina. Ser feminina não significa ser frágil, mas sim carregar a força da intuição, da sensibilidade e da criação. Não buscamos a anulação das características que nos tornam únicas para ocupar espaços; buscamos ocupar esses espaços com a nossa própria essência, lapidada pelo estudo e pela ética.

Promovemos a fraternidade mútua e a harmonia com a sociedade.
Queremos mulheres a favor da Verdade, da Justiça e da Humanidade.

Nossa jornada é para dentro (interna, autoconhecimento). Nos esforçamos para que as mulheres pensem por si, dominem suas paixões e sejam pilares de equilíbrio em suas famílias e na sociedade. Somos da Fênix Nut, Maçonaria Feminina, portanto femininas, livres no pensar - sem precisar de rótulos ideológicos.

Sandra Cristina Pedri


A Mulher na Maçonaria

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