O Mito da Caverna
Você conhece a história do Mito da Caverna de Platão? Se não conhece, tem aqui uma excelente oportunidade. E qual a relação dessa história com a Maçonaria? Os maçons se reúnem com o objetivo de buscar o aperfeiçoamento pessoal por meio do autoconhecimento. Quando sabemos quem somos, quais os nossos defeitos, quais as nossas qualidades.... fica mais fácil determinar aonde queremos chegar.
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| O Mito da Caverna. Imagem Meta AI. |
Na Maçonaria, no grau de Aprendiz, estudam-se obras de filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Thomas Hobbes, Kant, Jacques Maritain, entre outros, com o objetivo de incentivar a autorreflexão. O Mito da Caverna, citado na obra A República de Platão, proporciona excelentes ensinamentos e insigths, além de ilustrar e explicar ideias complexas sobre o conhecimento (natureza, origens e limites).
Um grupo de pessoas está acorrentada desde a infância no fundo de uma caverna escura. Ali, estão aprisionadas e dispostas de forma que só podem contemplar o fundo dessa caverna. Atrás, no entanto, há uma fogueira e um caminho elevado. Pessoas e objetos passam por esse caminho, e a luz da fogueira projeta suas sombras na parede que está diante delas. Sem jamais ver os objetos reais nem o fogo, a única realidade que conhecem são as distorcidas sombras projetadas, às quais dão nomes, tomando-as como reais.
Um dia, um dos prisioneiros é libertado à força e obrigado a se virar, encarar o fogo e, depois, subir a íngreme saída da caverna. A princípio, a luz o cega e ele sente dor e confusão. Ele preferia voltar ao conforto e à escuridão das sombras, que lhe eram familiares. Fora da caverna, seus olhos se acostumam gradualmente com a luz. Primeiro, ele vê as sombras dos objetos (reflexos na água), depois os objetos em si, e por fim, ele consegue olhar para a fonte de toda a luz e vida: o Sol.
O prisioneiro, agora liberto e portador da verdadeira realidade, sente pena de seus antigos companheiros e decide voltar para a caverna a fim de lhes contar a verdade e libertá-los. Ao voltar para a escuridão, seus olhos demoram para se reajustar e ele acaba tropeçando. Os outros zombam dele, dizendo que a jornada o tornou louco e piorou sua visão. Eles resistem à sua mensagem e, segundo a alegoria, chegam a matá-lo por tentar desacorrentá-los à força.
Comparando com os Níveis de Conhecimento
- A caverna representa o mundo sensível (opinião), onde vivemos guiados pelas aparências e pelos sentidos.
- Os objetos reais representam as ideias ou formas (justiça, beleza, bem etc.) ou seja, o verdadeiro conhecimento.
- O Sol representa a ideia do bem, que é a causa de todo o ser, verdade e inteligibilidade.
Quando nos libertamos das aparências e alcançamos a verdade por meio da razão, passamos a ter o dever moral de guiar os outros à luz, mesmo que sejamos rejeitados. O caminho para nos libertarmos é a "educação", que representa a subida da caverna e que exige esforço, disciplina e orientação da alma para o que é verdadeiro. Nesse percurso, a maçonaria ensina aos seus membros que devem combater o orgulho, os preconceitos e os erros, além de lutar contra a ignorância, a mentira, o fanatismo e a superstição, que são os causadores de todos, ou quase todos, os males da humanidade.
Como Isso Acontece
Recentes descobertas da Neurociência mostram que a mente humana vive aprisionada nos pensamentos automáticos, que podemos considerar como pensamentos disfuncionais (ex.: "não serei amada se eu não fizer o que me pediram", "serei rejeitada se eu disser 'não'" etc.). Tais pensamentos são como "sombras" rápidas e involuntárias que interpretam a realidade de forma tendenciosa. O sofrimento que experimentamos, portanto, não é real, mas sim produto da nossa percepção dos eventos.
Toda crise existencial começa quando nasce a consciência que exige a morte do nosso velho eu — a dissolução das chamadas "crenças centrais" negativas. Isso acontece, na Maçonaria, quando o Aprendiz começa a trabalhar o ego, o que chamamos de lapidar a Pedra Bruta, para alcançar a Luz (Pedra Polida). Essa Pedra Bruta pode ser comparada às ideias profundas e globais que temos sobre nós mesmos, sobre o mundo e o futuro e, muitas vezes, estão agrupadas em temas como desamparo, desamor e desvalor.
Platão anteviu o que hoje a Neurociência confirma: a realidade se comporta conforme a percepção do observador. A capacidade do cérebro de se reestruturar por meio da neuroplasticidade é a base biológica maçônica. O observador desperto, ou seja, aquele que trabalha ativamente em Loja, percebe que o mundo não precisa mudar; ele mesmo é que precisa identificar, avaliar e responder aos seus pensamentos e crenças disfuncionais.
A caverna é mental (formada pelo conjunto das crenças disfuncionais). A saída da caverna é vibracional e só se consegue sair quando há uma reestruturação cognitiva, que ocorre por meio da análise e da modificação. Nesse momento, enxergamos o Sol da verdade (Grande Arquiteto do Universo) e nos damos conta de que ele sempre esteve dentro de nós, apenas aguardando o trabalho de colaboração ativa entre o nosso eu consciente e o eu em construção.
Neuroplasticidade em Ação
Ao escolher ver o mundo sob uma "nova perspectiva" e praticar o "novo comportamento" (esperar calmamente em vez de reagir), passamos a trabalhar ativamente para o enfraquecimento das velhas conexões neurais da "caverna mental" (do Eu desvalorizado) e fortalecemos as novas conexões de Luz em que passamos a entender que o nosso valor é independente das respostas e ações dos outros. E qual é o resultado disso? Menos sofrimento e reações mais eficazes.
Como Sair da Caverna Mental (Exemplo)
O processo prático para sair da "caverna mental" é fazer uso da conhecida Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), que pode ser resumida em 3 passos principais:
1. Identificar a sombra (o pensamento automático) - Este é momento em que nos comportamos como o "prisioneiro acorrentado", que só vê a sombra na parede. Exemplo:
- Evento (o fato neutro): o colega não respondeu à sua mensagem.
- Sombra (o pensamento automático): ele está me ignorando. Ele não me respeita e acha que o meu trabalho não é importante.
- Emoção (o sofrimento): sentimentos de raiva, frustração e ansiedade.
- Comportamento (a reação): mandar uma segunda mensagem agressiva ou se fechar e não falar mais com ele.
2. Descobrir as correntes (crenças intermediárias e centrais) - Aqui você começa a se virar na caverna para o que está por trás da sombra. Você liga seu Pensamento Automático às suas regras de vida mais profundas.
- Regra (crença intermediária): se eu não for respeitado e levado a sério por todos, serei um fracasso (uma regra de vida que você segue).
- Essência (crença central - a Pedra Bruta): essa regra, por sua vez, está protegendo uma crença mais profunda, como "Eu sou incompetente" ou "Eu sou desvalorizado".
Conclusão da corrente: o sofrimento não veio da falta de resposta do colega à sua mensagem, mas porque essa falta de resposta ativou a sua crença de que você é desvalorizado.
3. Subir para a Luz (reestruturação cognitiva e neuroplasticidade) - Agora você se torna o Observador Desperto (o Maçom que trabalha) usando a razão para desafiar a sombra e criar uma nova perspectiva.
É fácil? Não! É difícil e exige a lapidação constante da Pedra Bruta, por isso o maçom costuma dizer que é um "eterno aprendiz". Mas é possível.
Sandra Cristina Pedri
Referências Bibliográficas
BECK, Judith S. Terapia
Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. 3ª ed. Porto Alegre:
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