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07 novembro 2025

Maçonaria e Religião

Desmistificando a Maçonaria como Religião

Templo Maçônico. Meta AI.

Quando se ouve falar em "Maçonaria", é comum que muitas pessoas a associem imediatamente a uma instituição religiosa. Essa associação, embora compreensível diante dos rituais e símbolos presentes nas Lojas Maçônicas, não corresponde à realidade. A Maçonaria não é uma religião, tampouco pretende substituir qualquer crença estabelecida.

A Maçonaria é uma fraternidade iniciática, filosófica e filantrópica que busca o aprimoramento moral, intelectual e espiritual de seus membros. Como bem afirmou Albert Pike, um dos mais influentes maçons do século XIX: "A Maçonaria é a ciência que nos ensina a lidar com a vida em busca do bem e do verdadeiro" (PIKE, 1871). Essa perspectiva revela que o foco da Ordem está na construção do ser humano, e não na doutrinação religiosa.

Embora a Maçonaria valorize a espiritualidade, ela não se equipara a uma igreja ou templo religioso. Em instituições religiosas, os fiéis se reúnem para cultuar uma divindade específica, seguir dogmas e praticar rituais próprios de uma tradição. Na Maçonaria, por outro lado, o objetivo é promover o estudo das diversas tradições espirituais e religiosas, incentivando o respeito à pluralidade de crenças.

Tolerância e Liberdade de Consciência

A liberdade de consciência é um dos pilares da Maçonaria. Desde sua fundação moderna, em 1717, a Ordem tem se posicionado como defensora da liberdade religiosa. A Constituição de Anderson (1723), documento fundamental da Maçonaria moderna, afirma: "É mais conveniente abrigar os maçons àquela religião com a qual todos os homens concordam, deixando as opiniões particulares para si mesmos, isto é, ser homens bons e verdadeiros, ou homens de honra e honestidade" (ANDERSON, 1723).

Essa postura é reforçada por Voltaire, filósofo iluminista e maçom, que declarou: "A fé é um livro que se lê com o coração" (VOLTAIRE, 1764). A Maçonaria, portanto, não impõe uma fé, mas convida à reflexão, ao estudo e à compreensão das múltiplas formas de espiritualidade.

O Estudo das Religiões como Caminho de Iluminação

Na Maçonaria, especialmente em suas vertentes mistas e liberais, o estudo das religiões e crenças é uma prática valorizada e incentivada. Seus membros são convidados a conhecer e refletir sobre diversas tradições espirituais — como o Cristianismo, o Judaísmo, o Islamismo o Hinduísmo, o Espiritismo, a Umbanda, o Candomblé entre outras — em um ambiente de liberdade de consciência e respeito mútuo. Essa abordagem pluralista está fundamentada nos princípios iluministas que sustentam a Ordem, como a tolerância, a fraternidade e a busca pela verdade. A presença de maçons de diferentes credos nas Lojas é uma expressão concreta da diversidade espiritual que a Maçonaria acolhe e promove.

Ao estudar diferentes tradições religiosas e filosóficas, os maçons são estimulados a transcender a ideia de que apenas sua religião de origem detém a verdade absoluta. Essa abertura ao conhecimento promove uma profunda transformação interior, favorecendo o desenvolvimento de uma postura mais tolerante, compassiva e universalista. A jornada iniciática maçônica, permeada por símbolos e rituais, é concebida como um processo de autodesenvolvimento e iluminação, no qual o indivíduo é chamado a construir seu próprio templo interior, equilibrando razão e espiritualidade. A tolerância, nesse contexto, não é mera aceitação passiva, mas uma virtude ativa, cultivada com discernimento e responsabilidade moral, como ensinam os princípios da Arte Real.

Benjamim Franklin, também maçom, dizia: "Um homem que não tem ética é um arranha-céu vazio, sem uma base sólida" (FRANLIN, 1779). A ética, a busca pela verdade e o respeito ao próximo são valores centrais na jornada maçônica.

Conclusão

A Maçonaria não é uma religião, mas im uma escola de virtudes, uma via de autoconhecimento e de construção moral. Ao promover o estudo das religiões, da filosofia, da teosofia, das ciências, da alquimia, da astrologia, da astronomia e de tantos outros saberes, ela não busca impor doutrinas, mas libertar o pensamento. Seu propósito é fomentar o respeito mútuo, cultivar a fraternidade entre os seres humanos e estimular o desenvolvimento ético e espiritual de seus membros. Como bem sintetiza Wiston Churchill: "A Maçonaria é uma escola de virtudes, onde aprendemos a ser justos, honestos e tolerantes" (CHURCHILL, apud Cidesp, 2025).

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

ANDERSON, James. Constituições dos Maçons Livres. Londres, 1723.

ANTUNES, Renato. Espiritualidade na Maçonaria: um caminho de autoconhecimento e iluminação. Freemason.com.br, 18 set. 2024. Disponível em: https://freemason.com.br/espiritualidade-na-maconaria-um-caminho-de-autoconhecimento-e-iluminacao/. Acesso em: 07 nov. 2025.

BUCHAUL, Ricardo B. Moral, ética e virtude. Revista Ciência & Maçonaria, São José dos Campos, 2013. Disponível em: https://cienciaemaconaria.com.br/index.php/cem/article/download/14/12. Acesso em: 07 nov. 2025. [cienciaema...ria.com.br]

CIDESP. Frases de Maçonaria de Grandes Pensadores e Reflexões. 2025. Disponível em: Cidesp. Acesso em: 07 nov. 2025. [cidesp.com.br]

CIDESP. Frases inspiradoras de Winston Churchill para refletir. Cidesp.com.br, 31 mar. 2025. Disponível em: https://cidesp.com.br/artigo/frases-winston-churchill/. Acesso em: 07 nov. 2025.

FRANKLIN, Benjamin. The Papers of Benjamin Franklin. New Haven: Yale University Press, 1779.

MAÇONARIA E MAÇON (s). Maçonaria, uma escola de virtudes. Freemason.pt, 11 abr. 2025. Disponível em: https://www.freemason.pt/maconaria-uma-escola-de-virtudes/. Acesso em: 07 nov. 2025.

PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Charleston: Supreme Council, 1871.

RODRIGUES, Iomar Araújo; SOUZA, Lourival da Cunha. Maçonaria, religião e os impactos na sociedade. São Paulo: Academia.edu, 2021. Disponível em: https://www.academia.edu/107355247/Ma%C3%A7onaria_Religi%C3%A3o_e_Os_Impactos_Na_Sociedade. Acesso em: 07 nov. 2025.

SOUZA, Fernando Rodrigues de. A questão do sagrado na maçonaria: intolerância, controvérsias e aproximações. Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña, v.15, n.2, 2023. Disponível em: SciELO. Acesso em: 07 nov. 2025.

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. Paris: Garnier, 1764.


03 novembro 2025

O que Sócrates Pode nos Ensinar?

Reflexão, Liberdade e Busca Pela Verdade

Sócrates. Meta AI.

"A vida que não é examinada não vale a pena ser vivida" — Sócrates, em A Apologia.

A Maçonaria é, antes de tudo, uma jornada de transformação ética, intelectual e espiritual. E poucos personagens da história da filosofia encarnam tão bem esses ideais quanto Sócrates. Em A Apologia de Sócrates, escrita por Platão, encontramos não apenas a defesa de um homem injustamente acusado, mas um verdadeiro tratado sobre coragem moral, liberdade de pensamento e compromisso com a verdade — valores que ressoam profundamente com a essência da Maçonaria. Por isso, A Apologia de Sócrates é uma das primeiras leituras recomendadas às Aprendizes, que são convidadas a refletir sobre como aplicar os ensinamentos socráticos em suas próprias vidas.

Sócrates foi condenado à morte por "corromper a juventude" e "não acreditar nos deuses da cidade". Na verdade, seu "crime" foi pensar livremente e incentivar outros a fazerem o mesmo. Na Maçonaria, também estimulamos as mulheres a pensarem livremente, a se conhecerem por meio de estudos, leituras e questionamentos. Encorajamos a rejeição de verdades prontas, promovendo a investigação, reflexão e construção de um entendimento próprio. Assim como Sócrates não recuou diante da injustiça, nós também não devemos recuar em nossa busca pela verdade — mesmo que ela nos confronte ou nos cause dor. 

Temos o costume de acreditar nas pessoas mais próximas, mas é preciso duvidar para encontrar a verdade. É preciso coragem para duvidar dos outros e até de nós mesmas, das nossas crenças mais arraigadas, pois aquilo que entendemos como real pode ser apenas uma imagem distorcida da realidade — uma visão filtrada pelas lentes que estamos acostumadas a usar. Lentes invisíveis, mas poderosas, que moldam nossos comportamentos, emoções e reações.

Quando tiramos a lente, matamos o nosso conhecido "eu interior". Às vezes, é necessário deixar morrer quem fomos, para que possamos renascer como quem realmente somos. Esse processo exige entrega, humildade e força. Mas é nele que reside a verdadeira liberdade: a liberdade de ser, de pensar, de sentir — sem amarras, sem ilusões. Como disse Sócrates: "Não é por temor da morte que um homem deve agir, mas por temor de cometer injustiça." (PLATÃO, 2001, p. 45). E há uma forma de injustiça muito danosa: aquela que praticamos contra nós mesmas, quando negamos nossa essência ou silenciamos nossa voz interior.

A máxima socrática "Conhece-te a ti mesmo" é um dos pilares da iniciação maçônica. Sócrates não se dizia sábio — pelo contrário, afirmava que sua sabedoria consistia em reconhecer sua ignorância. Esse é o ponto de partida para a verdadeira sabedoria: "Sei que nada sei" (PLATÃO, 2001, p. 38). Incentivamos nossas irmãs a buscar o conhecimento continuamente, a questionar suas crenças, a explorar outras formas de pensar, a ver o outro lado da moeda, a conhecer outras culturas e períodos históricos. Esse mergulho no "todo" amplia a consciência e fortalece a identidade.

Toda iniciação é um convite à introspecção — não apenas da irmã que passa pelo ritual, mas de todas as que dele participam, com carinho e dedicação, trabalhando nos preparativos e nos bastidores. Ao participarmos de uma Cerimônia Magna ou de uma Oficina, temos a chance de olhar para dentro de nós mesmas. E em cada símbolo, encontramos uma chave capaz de abrir as portas do nosso próprio templo interior.

Sócrates acreditava que a liberdade de pensar era um dever moral. Ele não impunha verdades — fazia perguntas. E é justamente isso que propomos: nada de dogmas, mas reflexão; nada de respostas prontas, mas caminhos de busca. "Sou como um tábano (mutuca) que desperta o cavalo adormecido da cidade" (PLATÃO, 2001, p. 29).

Ele via sua vida como uma missão. Não buscava glória, riqueza ou poder. Seu propósito era servir à verdade e ao bem comum. De forma semelhante, a Maçonaria tem como missão promover o desenvolvimento de mulheres livres e de bons costumes, conscientes de que o verdadeiro valor não está no cargo que ocupam, mas na forma como exercem a liderança — com ética, humildade e compromisso com o bem comum. Mulheres que não buscam prestígio em cargos, nem se deixam inebriar pelo poder que lhes é temporariamente confiado. Queremos que estejam conscientes de que não são o cargo, mas estão no cargo — e, por isso, devem estar comprometidas com a construção de uma sociedade mais fraterna. Não é o título, a comenda ou a posição que importam, mas sim o exemplo que é dado, dentro e fora dos templos.

Por ser a Maçonaria um espaço de crescimento, estudo, liberdade e ação, ela agrega mulheres livres e de bons costumes que, como Sócrates, não têm medo de pensar, de questionar e de transformar, pois ela é feita de irmandade, luz e coragem

Se desejamos descobrir algo em nós mesmas e no mundo, a Maçonaria é um caminho e, como Sócrates, podemos começar com uma simples pergunta: Quem somos?

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2001.

REALE, Giovanni. História da Filosofia Antiga: vol. I – Dos Pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo: Loyola, 2003.

26 outubro 2025

Josefina de Beauharnais - Imperatriz

Elegância e Poder no Império Napoleônico

Josefina de Beauharnais. Meta AI
A Imperatriz Josefina de Beauharnais (Marie Josèphe Rose Tascher de La Pagerie), esposa de Napoleão Bonaparte, é uma figura central na história da maçonaria feminina. Sua atuação como Grã-Mestra das Lojas de Adoção no início do século XIX representa um marco na luta pela inclusão das mulheres em espaços iniciáticos e filosóficos.

Josefina nasceu em 23 de junho de 1763, em Les Trois-Îlets, na Martinica, então colônia francesa. Filha de Joseph Gaspard Tascher de La Pagerie e Rose Claire des Verges de Sannois, foi educada de forma doméstica, como era comum entre as elites coloniais (WIKIPEDIA, 2025).

Em 1779, com 16 anos de idade, casou-se com Alexandre de Beauharnais (1760-1794), com quem teve dois filhos: Eugênio (1781-1824) e Hortênsia (1783-1837). Alexandre foi guilhotinado em 1794 durante o Terror da Revolução Francesa, e Josefina (com 31 anos de idade) foi presa, sendo libertada após a queda de Robespierre (WIKIPEDIA, 2025).

Segundo a Grande Loja Simbólica da Lusitânia (2018), Josefina foi iniciada na Maçonaria em 1790, na cidade de Estrasburgo, tornando-se membro ativo das Lojas de Adoção Fidélité e Sainte Sophie, consideradas paramaçônicas. Essa iniciação ocorreu enquanto seu marido, Alexandre de Beauharnais, servia no exército do Reno, do qual se tornaria comandante-chefe em 1793. Curiosamente, a combatente Marie-Henriette Heiniken também atuou nesse exército como ajudante de campo do general Charles Antonie Dominique Lauthier-Xaintrailles, seu companheiro, entre 1792 e 1793.

Em 1796, casou-se com Napoleão Bonaparte, tornando-se Imperatriz dos Franceses em 1804. O casamento foi anulado em 1810 por não gerar herdeiros, mas Josefina manteve boa relação com Napoleão até sua morte em 1814 com 51 anos de idade.

Posteriormente, entre 1804 e 1805, Josefina atuou como Grã-Mestra das Lojas de Adoção Regular da França, promovendo a criação de lojas femininas paralelas às masculinas, com o objetivo de incluir mais mulheres na maçonaria. Embora o papel dela seja central para as tradições maçônicas femininas, alguns historiadores acadêmicos debatem se sua liderança foi de fato ativa ou predominantemente honorária e de prestígio social.

Segundo Santos (2011), as Lojas de Adoção eram tuteladas por lojas masculinas e tinham funções limitadas, muitas vezes restritas a bailes e festividades. Tinham, também, ritos próprios, adaptados da tradição maçônica, com graus, símbolos e alegorias morais. Sob a liderança de Josefina, essas lojas ganharam legitimidade e visibilidade, representando um avanço na emancipação feminina dentro da maçonaria.

Josefina é considerada uma precursora da maçonaria feminina moderna, tendo inspirado movimentos posteriores como o Le Droit Humain, fundado por Marie Deraismes em 1893. Sua atuação como Grã-Mestra simboliza a possibilidade de liderança feminina em espaços tradicionalmente masculinos (HIVERT-MESSECA, 2015).

Josefina também teve papel na definição do gosto artístico e decorativo da França pós-revolucionária. Como Imperatriz, ela contribuiu para estabelecer o chamado estilo Consulado e Império, caracterizado pela inspiração na arte e arquitetura da Antiguidade clássica, com elementos como colunas, esfinges, águas e liras. Esse estilo se manifestava tanto na decoração de interiores quanto na moda, com móveis de linhas retas e tecidos nobres, além de vestidos de corte império que se tornaram símbolo de elegância feminina. O Castelo de Malmaison, residência pessoal de Josefina, tornou-se referência estética e cultural, influenciando palácios e residências aristocráticas em toda a Europa. Sua sensibilidade artística e refinamento ajudaram a consolidar uma estética que refletia o poder, a ordem e a sofisticação do novo regime napoleônico.

Além disso, sua trajetória de vida — de viúva empobrecida à Imperatriz — reflete resiliência, inteligência social e influência política, tornando-a modelo de elegância, diplomacia e poder feminino em tempos de revolução e império. 

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

GRANDE LOJA SIMBÓLICA DA LUSITÂNIA. Josefina de Beauharnais e a Maçonaria de Adoção. Facebook, 29 ago. 2018. Disponível em: https://www.facebook.com/grandelojasimbolicalusitania/posts/httpsgrandelojasimbolicalusitaniapt/1829749607079202. Acesso em: 19 out. 2025. [facebook.com]

HIVERT-MESSECA, Gisèle; HIVERT-MESSECA, Yves. Femmes et Franc-maçonnerie: Trois siècles de franc-maçonnerie féminine et mixte en France (de 1740 à nos jours). 2. ed. Paris: Éditions Dervy, 2015.

SANTOS, Fernanda Cristina. A mulher na história da maçonaria portuguesa: opressão e liberdade no contexto maçónico. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2011. Disponível em: https://archive.org/download/a-mulher-na-historia-da-maconaria-portuguesa. Acesso em: 19 out. 2025.

WIKIPÉDIA. Josefina de Beauharnais. Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Josefina_de_Beauharnais. Acesso em: 19 out. 2025.

15 outubro 2025

Símbolos Maçônicos nas Cidades Brasileiras

Tradição, Influência e Memória

Obelisco em Manaus. Copilot.
Ao cruzar os limites urbanos de diversas cidades brasileiras, é comum encontrar monumentos com o esquadro e o compasso, colunas, pirâmides ou estátuas que remetem à simbologia maçônica. Esses elementos não são apenas decorativos: representam a presença histórica da Maçonaria e sua influência na formação política, social e cultural do Brasil.

O esquadro representa a retidão moral, enquanto o compasso simboliza o equilíbrio espiritual e a busca pelo aperfeiçoamento. A letra G no centro pode remeter a God (Deus) ou à Geometria, ciência fundamental para os construtores medievais, origem simbólica da Maçonaria.

Outros símbolos recorrentes incluem:

  • Colunas J e B: força e estabilidade.
  • Pavimento em mosaico: dualidade entre luz e trevas.
  • Estrela flamejante: iluminação espiritual.
  • Pirâmides: ascensão e sabedoria.

Exemplos de Cidades com Monumentos Maçônicos

Há diversas cidades brasileiras com a presença desses símbolos, especialmente nas entradas, praças e locais públicos, como por exemplo:

  • Cosmópolis (SP): monumento triangular com esquadro e compasso em frente à rodoviária, erguido pela Loja Maçônica 31 de Março nº 152. 
  • Trindade (GO): monumento com o símbolo maçônico e uma estátua, localizado na entrada da cidade.
  • Realengo (RJ): monumento maçônico registrado em pesquisa acadêmica sobre simbolismo no espaço público.
  • Santo André (SP): monumento com três colunas douradas e o símbolo do esquadro e compasso com a letra G, representando igualdade.
  • São Caetano do Sul (SP): pirâmide com símbolos maçônicos em praça pública.

Além dessas, podemos citar: Campinas, Santos, Sorocaba, Presidente Prudente, Itanhaém, Uberaba, Varginha, Campina Grande, Venâncio Aires, Florianópolis, Niterói, Paraty, Angra dos Reis, entre outras. 

Obelisco na Rotatória do Eldorado, em Manaus (AM)

Um exemplo notável é o obelisco localizado na rotatória do Eldorado, no bairro Parque Dez de Novembro, em Manaus (AM). Este obelisco foi construído pela Grande Loja Maçônica do Amazonas (GLOMAM) com o apoio da Loja Esperança e Porvir n.1, fundada em 1872. Totalmente financiado pela Maçonaria, sem uso de recursos públicos. Sua instalação foi autorizada pelo Instituto Municipal de Ordem Social e Planejamento Urbano (Implurb), após solicitação da Ordem. 

Segundo o venerável mestre Tufi Salim Jorge Filho, da Loja Esperança e Porvir n.1, os objetivos da construção do obelisco foram: homenagear as obras filantrópicas realizadas pela Maçonaria no Amazonas; mostrar à população o que é a Maçonaria, seus valores e atuação social; e celebrar os princípios universais da Ordem. O monumento foi inaugurado em julho de 2012, como parte das comemorações dos 347 anos da cidade de Manaus.

Contexto Histórico e Cultural

A Maçonaria brasileira teve papel ativo em momentos decisivos da história nacional, como a Independência, a Proclamação da República e o movimento abolicionista. Lojas Maçônicas foram fundadas por intelectuais, políticos e líderes locais, que muitas vezes contribuíram com obras públicas, educação e filantropia.

Segundo o historiador Michel Silva, a Maçonaria deve ser compreendida como um fenômeno sociopolítico que influenciou a identidade política brasileira desde o século XIX. Já José Castellani, autor de História do Grande Oriente do Brasil, destaca que até 1930 a história da Maçonaria se confundia com a própria história do país.

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

CMSB. Biblioteca Digital da Confederação Maçônica do Brasil. [S.l.]: CMSB, 2025. Disponível em: https://cmsb.org.br/biblioteca/. Acesso em: 05 out. 2025.

GOB. Biblioteca Virtual do Grande Oriente do Brasil. Brasília: GOB, 2025. Disponível em: https://www.gob.org.br/biblioteca-virtual/. Acesso em: 05 out. 2025.

GOB-SP. Monumentos Maçônicos do Estado de São Paulo. São Paulo: Grande Oriente do Brasil – SP, 2025. Disponível em: https://gobspcultura.org/home/monumentos/. Acesso em: 05 out. 2025.

CASTELLANI, José; CARVALHO, William. História do Grande Oriente do Brasil. São Paulo: Madras Editora, 2009.

MACEDO, Andrew Jones Rodrigues de. Novo Ordo Seclorum: simbolismo maçom no espaço público e a representação de influência política da ordem. Uma análise sobre secularismo. Seropédica: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2023. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Ciências Sociais). [arquivos.ufrrj.br]

RODRIGUES, Marcel Henrique. Maçonaria e Simbologia: uma análise do preconceito através da História e da Psicologia. [S.l.]: Academia.edu, 2020. Disponível em: https://www.academia.edu/42017927. Acesso em: 05 out. 2025. 

SILVA, Michel (Org.). Maçonaria no Brasil: história, política e sociabilidade. San José: REHMLAC+, 2015.

10 outubro 2025

Afinal, o que é Maçonaria?

Entre Mitos e Verdades

Muitos se perguntam: o que é a Maçonaria? Uma seita? Uma fraternidade? Religião? Associação? Com o crescimento das redes sociais como principal meio de comunicação e informação, a Maçonaria — uma das organizações mais antigas e discretas do mundo — passou a ser alvo de uma enxurrada de interpretações equivocadas, teorias conspiratórias e julgamentos infundados. Embora a fraternidade tenha como pilares a ética, a filantropia e o aperfeiçoamento pessoal, o ambiente digital nem sempre reflete essa realidade.

Papa Clemente XII. Copilot.

Historicamente, a Maçonaria enfrentou resistência institucional. Em 1738, o Papa Clemente XII, através da bula In eminenti apostolatus specula, proibiu os católicos de serem membros de Lojas Maçônicas, alegando incompatibilidade entre os princípios maçônicos e os da Igreja. Embora essa proibição tenha sido reiterada por outros papas, a excomunhão não foi mencionada no Código de Direito Canônico de 1983, ainda que a Igreja mantenha sua posição contrária à participação de católicos na Maçonaria.

No Brasil Império, quando o catolicismo era a religião oficial e não havia templos para outras crenças, a Maçonaria ofereceu suas Lojas como espaço para cultos diversos. Isso se deve ao princípio de aceitação universal da instituição: todo homem livre, de bons costumes e que creia em um Deus único é bem-vindo, independentemente de sua religião.

Segundo Winetzki (2021), “a Maçonaria é uma instituição que preza pela discrição, mas não pelo segredo absoluto. A falta de compreensão sobre seus símbolos e rituais alimenta especulações infundadas”. Nas redes sociais, especialmente no YouTube, proliferam definições distorcidas: “seita ou culto satânico”, “sociedade secreta com intenções nefastas”, “elitismo e favoritismo”, entre outras. Nenhuma dessas interpretações reflete a verdadeira essência da Maçonaria.

Afinal, o que é a Maçonaria? É uma instituição filosófica e fraternal que visa o aprimoramento moral e intelectual de seus membros, com base em valores universais como liberdade, igualdade e fraternidade. Seu objetivo é contribuir para um mundo melhor, por meio do desenvolvimento pessoal e coletivo. Segundo a Loja Brasília nº 1693 (2023), “a Maçonaria não é uma religião, tampouco uma seita. É uma instituição filosófica que busca o aprimoramento moral e intelectual de seus membros, com base em valores universais”. A Confederação Maçônica do Brasil (COMAB) complementa: “a Maçonaria é uma organização fraternal que tem como princípio básico o amor fraterno, a prática da caridade e a busca da Verdade”.

Pode parecer utópico desejar um mundo melhor para todos, especialmente em tempos marcados por guerras, intolerâncias e crises éticas. No entanto, é justamente nesses momentos que instituições como a Maçonaria se tornam ainda mais relevantes, oferecendo ferramentas simbólicas, filosóficas e práticas para inspirar transformação e consciência.

Um dos ensinamentos fundamentais da Maçonaria, já no primeiro grau, é a busca pela Verdade. Essa tarefa se torna cada vez mais desafiadora diante das tecnologias atuais, como a inteligência artificial, que permite a criação de vídeos e imagens extremamente realistas, dificultando a distinção entre o verdadeiro e o falso. A responsabilidade de investigar e refletir antes de replicar informações é, portanto, mais urgente do que nunca.

Como qualquer instituição, a Maçonaria também está sujeita ao uso indevido de seu nome por indivíduos movidos por interesses pessoais. Um exemplo foi o chamado “Escândalo da Maçonaria”, ocorrido entre 2003 e 2005, quando uma investigação revelou o desvio de R$ 1,4 milhão dos cofres da Justiça de Mato Grosso para uma loja maçônica. Dez magistrados foram aposentados compulsoriamente pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), embora alguns tenham sido posteriormente reintegrados por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo o ministro Nunes Marques, “não haveria coerência entre a gravíssima penalidade aplicada e as conclusões fáticas e jurídicas edificadas no inquérito penal e no inquérito civil de improbidade administrativa, ambos arquivados pelo Parquet” (MIGALHAS, 2024).

Esse caso demonstra que a responsabilidade deve recair sobre os indivíduos e não sobre a instituição em si. A Maçonaria, como qualquer organização, pode ser mal interpretada ou mal utilizada, mas seus princípios permanecem voltados ao bem comum, à ética e à construção de uma sociedade mais justa.

Exclusão de Membros da Maçonaria

Embora a Maçonaria seja uma instituição que valoriza o aperfeiçoamento moral e intelectual, há casos em que membros são excluídos da Ordem. Essa exclusão não ocorre de forma arbitrária, mas segue critérios éticos e estatutários rigorosos. Os principais motivos que podem levar à exclusão de um maçom incluem:

  • Violação dos princípios maçônicos, como desrespeito à ética, à fraternidade ou à verdade;
  • Condutas incompatíveis com os valores da Ordem, como envolvimento em crimes, corrupção, violência ou discriminação;
  • Desrespeito às regras internas da Loja, como insubordinação, quebra de sigilo ritualístico ou comportamento desagregador;
  • Falta de assiduidade e comprometimento, quando o maçom deixa de participar das atividades sem justificativa por longos períodos;
  • Utilização indevida do nome da Maçonaria para fins pessoais ou políticos, o que compromete a imagem da instituição.

Essas medidas visam preservar a integridade da Ordem e garantir que seus membros estejam alinhados com os ideais de construção de um mundo mais justo, ético e fraterno. A exclusão, portanto, é sempre uma medida extrema, precedida de análise criteriosa e, em muitos casos, de oportunidades para correção de conduta.

Conclusão

A Maçonaria é uma instituição filosófica, fraternal e iniciática que busca o aperfeiçoamento moral e intelectual de seus membros. Apesar de sua discrição, ela não é secreta, tampouco maléfica. A desinformação nas redes sociais contribui para a disseminação de mitos e preconceitos, mas cabe a cada indivíduo buscar a verdade com responsabilidade. 

Como qualquer organização humana, está sujeita a desvios individuais, mas seus princípios permanecem voltados à construção de um mundo mais justo, ético e fraterno. A exclusão de membros que não respeitam esses princípios é uma forma de preservar a essência da Ordem e garantir sua continuidade como espaço de evolução pessoal e coletiva.

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

COMAB. Confederação Maçônica do Brasil. Disponível em: https://comab.org.br/. Acesso em: 09 out. 2025.

LOJA BRASÍLIA Nº 1693. Estatuto Social. Disponível em: https://lojabrasilia.com.br/bem-vindo/estatuto-social/. Acesso em: 09 out. 2025.

TERRAEscândalo da Maçonaria: juíza reintegrada após aposentadoria compulsória vai receber R$ 5,8 mi. Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/brasil/politica/escandalo-da-maconaria-juiza-reintegrada-apos-aposentadoria-compulsoria-vai-receber-r-58-mi,47a52f9e8f1c61bc879500e5e24e06621jgr50ng.html. Acesso em: 09 out. 2025.

WINETZKI, Michael. Definição de Maçonaria. Disponível em: https://www.michaelwinetzki.com.br/2021/03/. Acesso em: 09 out. 2025.

09 outubro 2025

Georges Martin

Rompendo Barreiras ao Lado de Maria Deraismes

As mulheres contaram com a contribuição e o apoio de diversos homens maçons que enfrentaram desafios imensos para incluí-las nas Lojas Maçônicas. Começamos apresentando Arthur St. Leger, pai de Elizabeth Aldworth e, agora, apresentaremos Georges Martin.

Georges Martin. Copilot.
Georges Martin (1844–1916) foi um médico, político e maçom francês que desempenhou papel fundamental na fundação da maçonaria mista ao lado de Maria Deraismes. Nascido em 9 de maio de 1844 na Rue Mouffetard, em Paris, era filho de Marie Hippolyte Joseph Martin, farmacêutico, e de Anne Françoise Caroline Faffe. Estudou com os jesuítas e obteve os títulos de bacharel em Letras (1861) e Ciências (1863). Iniciou seus estudos de medicina em Paris, mas interrompeu a formação para se juntar às tropas de Giuseppe Garibaldi na campanha pela unificação italiana, em 1866. Posteriormente, retomou os estudos em Montpellier, onde obteve o título de Doutor em Medicina em 1870.

Martin foi um republicano convicto, defensor do laicismo e da emancipação feminina. Atuou como vereador de Paris entre 1874 e 1892, senador da Terceira República Francesa pelo departamento do Sena de 1885 a 1890, e conselheiro geral em Lamotte-Beuvron de 1897 até sua morte em 1916. Durante sua trajetória política, lutou por causas sociais como a assistência às crianças, a reabertura dos escritórios de caridade e a criação de uma escola pública, laica e gratuita. Em 1884, foi eleito presidente do Conselho Geral do Sena, e sua atuação foi marcada por propostas de reformas sociais e sanitárias.

Na Maçonaria, Georges Martin foi iniciado em 21 de março de 1879 na loja Union et Bienfaisance, ligada ao Rito Escocês Antigo e Aceito. Convencido de que a maçonaria não poderia ser verdadeiramente construtiva sem a presença das mulheres, trabalhou intensamente para conquistar a confiança das lojas masculinas e promover a iniciação feminina. Em 1882, participou da histórica iniciação de Maria Deraismes na loja Les Libres Penseurs, em Le Pecq — um ato revolucionário que contrariava as normas da maçonaria tradicional.

Essa parceria resultou, em 4 de abril de 1893, na fundação da primeira Loja Maçônica Mista, a Grande Loja Simbólica Escocesa Le Droit Humain, base da atual Ordem Maçônica Mista Internacional Le Droit Humain. Georges Martin não desejava ocupar cargos de liderança, mas foi um orador notável e, após o falecimento de Maria Deraismes em 1894, organizou e expandiu a Ordem. Seu entusiasmo e dedicação levaram à fundação de lojas na Suíça, Inglaterra e, posteriormente, em mais de 70 países.

“Nunca entendi por que minha mãe, a quem devo minha existência, que me criou, que me educou, a quem devo tudo o que sou, que, quando alcancei minha maioridade civil e política, já tinha vinte e um anos a mais de experiência do que eu, deveria ser considerada inferior, e eu superior, apenas por ser homem.” (Georges Martin)

Georges Martin faleceu em 1º de outubro de 1916, em um pequeno apartamento na sede da Ordem, na Rue Jules Breton nº 5 (Paris), deixando um legado de inclusão, justiça social e fraternidade que continua inspirando a maçonaria mista até os dias atuais.

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

LE DROIT HUMAIN BRASIL. Biografia Georges Martin. Disponível em: https://www.ledroithumainbrasil.com.br/c%C3%B3pia-biografia-maria-deraimes. Acesso em: 05 out. 2025.

19 setembro 2025

Da Inglaterra a Índia: a jornada de Annie Besant

Uma mulher à frente do seu tempo

Imagem criada ChatGPT.
Annie Wood Besant nasceu em 1º de outubro de 1847, em Londres, filha de William Burton Persse Wood e Emily Roche Morris. Seu pai faleceu quando ela ainda era criança, deixando a família em dificuldades. Sua educação foi conduzida em parte pela mãe e em parte por Ellen Marryat, amiga da família. Nessa época, Annie já mostrava um espírito questionador. Em sua autobiografia, ela recorda que “desde a infância eu tinha uma sede insaciável de saber, e nenhum medo de onde esse saber pudesse me conduzir” (Besant, 1893, p. 15).

Em dezembro de 1867, com vinte anos, casou-se com o reverendo Frank Besant, com quem teve dois filhos, Arthur e Mabel. O casamento, porém, foi infeliz, marcado por conflitos devido à crise de fé de Annie e à sua rejeição aos dogmas cristãos. A própria Annie descreveu: “Nós éramos um par mal ajustado, sem afinidade real, unidos apenas por laços externos” (Besant, 1893, p. 53). A separação legal ocorreu em 1873, quando inicialmente levou consigo a filha Mabel. (NETHERCOT, 1960, p. 45).

Após a separação Annie Besant iniciou sua militância social e intelectual na década de 1870, ao lado de Charles Bradlaugh (1833–1891), líder da National Secular Society, defendendo causas como a liberdade de expressão, a educação pública, o controle de natalidad e, de forma geral, os direitos das mulheres. A parceria ganhou destaque durante o caso Fruits of Philosophy (1877), quando ambos foram processados por publicar um livro sobre métodos de controle de natalidade, considerado obsceno na época. Segundo Taylor (1991, p. 87), “Besant encontrou em Bradlaugh um mentor e aliado, que lhe mostrou como articular ideias radicais e defender o direito à liberdade de pensamento”. A colaboração com Bradlaugh foi decisiva para o desenvolvimento do ativismo público de Annie, preparando-a para sua posterior atuação na teosofia, na educação e na política na Índia. No entanto, após essas polêmicas relacionadas às suas ideias sobre controle de  natalidade, Annie perdeu a guarda dos filhos. Em 1878, a decisão judicial favoreceu o marido, Frank Besant, o que a afetou profundamente do ponto de vista emocional.

Embora separada legalmente, Annie ainda manteve algum contato com os filhos, mas era limitado e supervisionado pelo pai. Em suas memórias, Besant expressa pesar e saudade: ela escreveu que a separação a “marcou para sempre, ensinando o preço da independência e da defesa de ideias impopulares” (Besant, 1893, p. 107). A perda da guarda reforçou sua determinação política e social. Muitos biógrafos, como Taylor (1991, p.88), destacam que "a dor pessoal de Annie fortaleceu seu compromisso com causas que ela acreditava serem justas, como educação, liberdade e direitos das mulheres". A partir de então, ela canalizou o amor pelos filhos em seu trabalho público e na educação de jovens, como nas escolas teosóficas que fundou posteriormente na Índia.

Em 1889, ela ingressou na Sociedade Teosófica, tornando-se uma de suas líderes mais influentes. Em 1907, foi eleita presidente mundial, cargo que exerceu até sua morte. Annie acreditava que a espiritualidade deveria andar lado a lado com a transformação social. Segundo Besant (1893, p. 212) “A verdadeira religião deve ser vivida na vida diária, traduzida em serviço à humanidade”.

No campo maçônico, Annie Besant foi iniciada em Paris, em 27 de julho de 1902, na Ordem Le Droit Humain. Poucos meses depois, em 26 de setembro de 1902, participou da fundação da Loja Human Duty n. 6, em Londres, tornando-se sua primeira Venerável Mestra. Esta loja estava ligada à Le Droit HumainComo lembra Nethercot (1963, p. 211), “com a fundação da nova loja, Besant consolidou a presença da co-maçonaria (como era chamada a maçonaria mista naquela época - co-freemasonry) na Grã-Bretanha e abriu caminho para sua expansão mundial”. Besant trabalhou para expandir a maçonaria mista para diversos países, incluindo Irlanda, Índia, África do Sul, Austrália, Nova Zelândia e regiões do Sudeste Asiático.

Na Índia, Besant atuou como educadora e nacionalista. Apoiou a criação de escolas e faculdades, editou jornais e, em 1916, fundou a Home Rule League (inspirada em movimentos irlandeses de autonomia) que exigia autogoverno para a Índia dentro do Império Britânico. Por isso, foi presa em 1917 sob a Defense of Indialegislação que dava poderes ao governo colonial para prender líderes sem julgamento formal, em nome da 'segurança do império'. O governo britânico considerava a atividade de Besant subversiva, especialmente durante a Primeira Guerra Mundial, quando qualquer movimento político (que pudesse enfraquecer a autoridade britânica) era visto como perigoso. 

Annie ficou confinada em Ooty (montanhas do sul da Índia) por cerca de 93 dias. Sua prisão provocou grande mobilização popular e apoio de líderes indianos, o que aumentou a visibilidade do movimento Home Rule League. Após essa forte pressão popular, ela foi libertada e eleita presidente do Congresso Nacional Indiano no mesmo ano (CHANDRA, 2001, p. 74).

Annie Besant faleceu em 20 de setembro de 1933, em Adyar, Índia. Sua vida foi marcada por profundas transformações espirituais e políticas. Como resume Taylor (1991, p. 301), “ela foi ao mesmo tempo livre-pensadora, socialista, teósofa, maçom e nacionalista indiana — um exemplo raro de coerência na diversidade”. Deixou as seguintes obras publicadas de sua autoria:

BESANT, Annie. The Education of the People. 1882.
BESANT, Annie. An Autobiography. London: T. Fisher Unwin, 1893.
BESANT, Annie. The Ancient Wisdom. 1897.
BESANT, Annie. Woman’s Work in the World. 1902.
BESANT, Annie. Education in the West Indies. 1907.
BESANT, Annie. An Introduction to Yoga. 1908.
BESANT, Annie; LEADBEATER, Charles W. Occult Chemistry. 1908.
BESANT, Annie. Theosophy and the Soul. 1911.
BESANT, Annie. The Case for India. 1917.
BESANT, Annie. India: Its Problems and Its Leaders. 1923.

Referências Bibliográficas

BESANT, Annie. An Autobiography. London: T. Fisher Unwin, 1893. Disponível em: https://www.gutenberg.org/ebooks/12085. Acesso em: 16 set. 2025.

CHANDRA, Jyoti. Annie Besant: From Theosophy to Nationalism. New Delhi: K.K. Publications, 2001.

NETHERCOT, Arthur H. The First Five Lives of Annie Besant. Chicago: University of Chicago Press, 1960.

NETHERCOT, Arthur H. The Last Four Lives of Annie Besant. Chicago: University of Chicago Press, 1963.

TAYLOR, Anne. Annie Besant: A Biography. Oxford: Oxford University Press, 1991.

Sandra Cristina Pedri

15 setembro 2025

Marie-Adelaide Deraismes, quem foi?

Fonte: Imagem criada pelo Meta AI.

Pioneira da Maçonaria Mista

Marie-Adélaïde Deraismes (1828-1894), mais conhecida como Maria Deraismes, nasceu em 17 de agosto de 1828, em Paris, França, em uma família burguesa liberal, com profundas tendências ao livre-pensamento (LE DROIT HUMAIN, [s.d.]). Seus pais foram François Deraismes (pai) e Anne Geneviève Deraismies (mãe). Eles eram pessoas abastadas da elite burguesa liberal, com interesses culturais, filosóficos e intelectuais elevados. Seu pai, François Deraismes, era descrito como alguém "muito dedicado à cultura" e conhecedor profundo de Voltaire, o que indica que tinha meios e educação para atividades intelectuais. Anne (sua mãe) foi dona de casa. Desde jovem, Maria Deraismes recebeu uma educação erudita no ambiente doméstico: aprendeu latim e grego, estudou filósofos iluministas, interessou-se pelas religiões orientais e pelos textos dos filósofos modernos (WIKIPÉDIA, 2023).

Transformando Tradição em Modernidade

Desde seus primeiros anos de atuação intelectual, Deraismes envolveu-se com a causa dos direitos das mulheres, com especial atenção para a igualdade legal, o acesso à educação e a liberdade política (OPENEDITION JOURNALS, 2011).

O evento mais simbólico em sua trajetória de vida ocorreu em 14 de janeiro de 1882 (com 53 anos), quando foi iniciada na Loja Les Libres Penseurs, em Le Pecq, uma pequena localidade próxima a Paris. Essa iniciação a marcou como a primeira mulher a participar oficialmente de uma loja maçônica masculina, rompendo com normas tradicionais da maçonaria daquele tempo (WIKIPÉDIA, 2023; LE DROIT HUMAIN, [s.d.]).

Após essa iniciação, a loja sofreu repercussões: foi suspensa pela Grande Loja Simbólica Escocesa da França, em virtude de regras que não admitiam mulheres. A suspensão, entretanto, durou apenas alguns meses, após os membros da loja omitirem o nome de Deraismes das listas de filiação para reintegração (WIKIPÉDIA, 2023).

Onze anos depois, em 4 de abril de 1893, Maria Deraismes e Georges Martin fundaram em Paris a primeira loja maçônica mista chamada Le Droit Humain (ou Ordem Maçônica Mista Internacional “Le Droit Humain”), na qual homens e mulheres teriam iguais direitos e deveres, algo inovador para seu tempo (WIKIPÉDIA, 2023).

Além de maçônica e feminista, Deraismes consolidou-se como oradora e escritora. Participou da fundação de associações feministas, como L’Association pour le droit des femmes em 1869, além de manter estreito diálogo com o movimento republicano, anticlerical e de livre-pensamento (OPENEDITION JOURNALS, 2011).

Maria Deraismes faleceu em 6 de fevereiro de 1894 (com 66 anos), em Paris, deixando como legado não apenas textos e discursos, mas também instituições e práticas que afirmavam a igualdade de gênero, especialmente no âmbito maçônico e dos direitos civis das mulheres (LE DROIT HUMAIN, [s.d.]).

Sua foto mais divulgada é a que está em preto e branco. No entanto, pedimos ao ChatGPT para criar uma foto da Maria Deraismes mais jovem usando como base essa foto.

Referências Bibliográficas

DERAISMES, Maria. Ève dans l’humanité. Angoulême: Éditions Abeille et Castor, 1868/2008.

LE DROIT HUMAIN Brasil. Biografia: Maria Deraismes. Disponível em: https://www.ledroithumainbrasil.com.br. Acesso em 14 set. 2025.

OPENEDITION JOURNALS. Maria Deraismes (1828-1894). Revue d’histoire du XIXe siècle, 2011. Disponível em: https://journals.openedition.org/rh19/3536. Acesso em 14 set. 2025..

WIKIPÉDIA. Maria Deraismes. Wikipédia, a enciclopédia livre. Disponível em: https://fr.wikipedia.org/wiki/Maria_Deraismes. Acesso em 14 set. 2025.

Sandra Cristina Pedri

08 setembro 2025

O Sigilo Maçônico

Com base nos fundamentos, princípios e aplicações do Sigilo Maçônico, explicado a seguir, o Blog da Fênix Nut não terá em suas páginas pranchas e outros textos que venham a infringir o 23o Landmark. 

Fundamentos, Princípios e Aplicações

Imagem criada pelo ChatGPT.
O sigilo maçônico é um dos pilares fundamentais da Maçonaria, sendo compreendido como a confidencialidade dos ensinamentos, rituais e conhecimentos específicos da Ordem. Este sigilo é transmitido aos iniciados por meio de juramentos solenes e representa não apenas uma prática tradicional, mas também um valor ético e filosófico que sustenta a identidade da Fraternidade.

O que inclui o sigilo maçônico? Segundo Aveline e Oliveira (s.d.), o sigilo maçônico abrange:

  • Rituais e Ensinamentos: transmitidos exclusivamente aos iniciados, os rituais e lições filosóficas são protegidos por juramentos e não devem ser divulgados aos profanos.
  • Sinais e Palavras de Reconhecimento: métodos de identificação entre maçons, como apertos de mão e palavras específicas, são mantidos em segredo.
  • Confidências Privadas: os maçons devem guardar com discrição as informações pessoais compartilhadas entre irmãos, reforçando a confiança mútua.
Por que a Maçonaria mantém o sigilo? A prática do sigilo tem múltiplas funções dentro da Ordem:
  • Proteção da Identidade e Tradição: o sigilo preserva os aspectos esotéricos da Maçonaria, evitando interpretações equivocadas por parte dos não iniciados (AVELINE; OLIVEIRA, s.d.).
  • Promoção da Discrição e Disciplina: a circunspecção é considerada uma virtude essencial para o progresso espiritual do maçom.
  • Fortalecimento da Fraternidade: o compromisso com o segredo reforça os laços entre os membros, criando um ambiente de confiança e respeito. 
  • Valorização dos Ensinamentos: os mistérios maçônicos são tratados como tesouros espirituais, cuja compreensão exige preparo e iniciação adequada.
  •  Caráter Filosófico e Moral: o sigilo favorece a introspecção e o autoconhecimento, elementos centrais da jornada iniciática.

O 23º Landmark e o sigilo - De acordo com Mackey (apud ARLS Pentalpha, 2012), o 23º Landmark da Maçonaria estabelece que os conhecimentos adquiridos pela iniciação — incluindo métodos de trabalho, lendas e tradições — devem ser mantidos em segredo e comunicados apenas a outros irmãos. Este princípio é considerado essencial para a integridade da Ordem.

O sigilo como símbolo e ética - A simbologia maçônica, como o compasso e o esquadro, representa valores éticos e morais que orientam o comportamento do maçom. O sigilo, nesse contexto, não é apenas uma prática, mas um símbolo de respeito à tradição e à profundidade dos ensinamentos (SOUZA, 2025).

Sigilo e Fraternidade: uma reflexão prática - Embora o sigilo seja indispensável, sua aplicação deve ser feita com discernimento. A exclusão de irmãs iniciadas e integrantes do grau em que determinadas informações foram transmitidas, como decisões tomadas em sessões das quais se ausentaram por motivos justos, contraria os princípios de fraternidade e solidariedade. O balaústre, por exemplo, existe justamente para registrar e compartilhar os acontecimentos da Loja, garantindo a continuidade dos trabalhos (AVELINE; OLIVEIRA, s.d.).

Referência bíblica ao sigilo - A prática do sigilo encontra respaldo até mesmo em ensinamentos cristãos. Em Mateus 17:9, Jesus instrui seus discípulos a manterem em segredo a visão da transfiguração até que o Filho do Homem ressuscitasse. Essa passagem ilustra que o sigilo pode ser uma ferramenta de proteção espiritual e de respeito ao tempo certo para revelações (BÍBLIA, 2014).

Referências Bibliográficas

AVELINE, Arthur; OLIVEIRA, Jaime Balbino de. O sigilo maçônico. Disponível em: 
https://www.cavaleirosdaluz18.com.br/trabalhos/O%20Sigilo%20Maconico.pdf. Acesso em: 05 set. 2025.

BÍBLIA. Português. Bíblia sagrada: Novo Testamento. Tradução de Padre Fábio Meira. Santa Catarina: Inove, 2014.

MACKAY, Albert G. Os Landmarks - compilados por Albert G. Mackey. ARLS Pentalpha nº 2239. Disponível em: https://arlspentalpha.webnode.com.br/news/os-landmarks-/. Acesso em: 05 set. 2025.

SOUZA, Renato Ângelo Ribeiro de. O sigilo maçônico: entendendo os mistérios e juramentos. Prezi. Disponível em: https://prezi.com/p/rnj5uxdcyc5t/o-sigilo-maconico-entendendo-os-misterios-e-juramentos/. Acesso em: 05 set. 2025. 

Sandra Cristina Pedri

Maçonaria Feminina: O Despertar da Consciência

Além das Ideologias Recentemente um homem nos enviou uma mensagem (via WhatsApp) que, entre outras frases, escreveu: "É que eu vi que...