07 dezembro 2025

A Liderança Maçônica

Servidora e Facilitadora
Imagem criada por Meta AI

A gestão empresarial moderna está se afastando do modelo "comando e controle" (hierarquia rígida) para adotar uma postura mais de facilitação e serviço. O líder servidor não se vê no topo para dar ordens, mas sim como alguém que apoia e capacita sua equipe para que ela possa desempenhar seu melhor trabalho e alcançar o propósito coletivo.

Atualmente vemos como principais características de um líder a empatia, escuta ativa, desenvolvimento da equipe (mentoria e coaching), humildade e a habilidade de remover obstáculos para que os colaboradores (no caso da maçonaria, os(as) Obreiros(as)) possam florescer. Portanto, o foco da liderança está mais em inspirar e alinhar as pessoas a uma visão de propósitos claros do que simplesmente supervisionar tarefas.

Na maçonaria feminina a Venerável Mestre não é apenas aquela que detém a autoridade ritualística, mas é a principal facilitadora para que os trabalhos da Loja e as atividades administrativas ocorram em perfeita harmonia e regularidade. Ela é quem garante às demais irmãs, que ocupam cargos oficiais, todo suporte e alinhamento necessários para que exerçam suas funções de forma zelosa e eficaz, mantendo a disciplina e o decoro sem recorrer a um autoritarismo desnecessário. Cabe a ela remover as distrações e os conflitos (ou obstáculos) para que o foco seja o aprimoramento moral e a instrução maçônica.

Desenvolvedora e Mentora das Obreiras

Assim como o líder noderno investe em coaching e desenvolvimento contínuo de seus colaboradores (soft skills) a Venerável Mestre tem o dever primordial de zelar pela instrução e evolução de suas Irmãs, especialmente das recém-iniciadas (Aprendizes e Companheiras). Para isso deve:

  • agir como Mentora inspirando a busca pelo conhecimento e a prática dos princípios maçônicos. Sua conduta deve ser um exemplo de retidão e justiça (simbolizados pelo Esquadro, sua Joia), servindo de modelo para que as demais Obreiras se tornem "maçons mais retas e justas". Portanto, ao invés de apenas delegar tarefas, ela deve bucar meios que lhe possibilitem capacitar as Obreiras para os próximos passos, preparando-as para assumir, no futuro, os cargos de liderança da Loja.

Foco na Harmonia e no Propósito Compartilhado

A liderança servidora busca alinhar todas as Irmãs a um propósito maior, que é a construção do Templo Interior e a busca pela Verdade, promovendo a virtude e o bem-estar social. Cabe à Venerável Mestre usar a escuta ativa e a empatia (características do líder servidor) para mediar conflitos, unir as Colunas e garantir que todas as decisões (que devem ser, muitas vezes, votadas) sirvam ao interesse coletivo e superior da Ordem, e não a interesses pessoais. 

Dessa forma, a Venerável Mestre transformará sua autoridade ritualística em uma autoridade moral e inspiracional, potencializando o desenvolvimento de cada Obreira e, consequentemente, o sucesso e a prosperidade da Loja.

No próximo artigo abordaremos a aplicação da comunicação clara e transparente (outro aspecto da liderança empresarial moderna).

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

BAGGIEIRI, Dario Angelo. Maçonaria Atual: Temos Líderes ou Dirigentes? Uma Visão Holística de Um Eterno Sonhador. Academia Maçônica de Letras do Estado do Espírito Santo, 8 jul. 2018. Disponível em: [endereço da URL]. Acesso em: 7 dez. 2025. (Nota: Substitua "[endereço da URL]" pelo link real, caso use este artigo específico.)

BLANCHARD, Kenneth H. Liderança de Alto Nível: Como Criar e Liderar Organizações de Alto Desempenho. Barueri, SP: Manole, 2019. (Ou a versão mais antiga, que foca no coaching e desenvolvimento da equipe).

HUNTER, James C. O monge e o executivo: uma história sobre a essência da liderança. Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

ISMAIL, Kennyo Mahmud Soares Oliveira. Liderança Maçônica: A Influência da Liderança na Identidade e Comportamento Maçônico. 2013. 70 f. Dissertação (Mestrado em Administração) – Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2013.

MARTINS, Erika Camila Buzo et al. Liderança servidora: o modelo Southwest Airlines. Revista de Ciências Gerenciais, v. 16, n. 24, p. 111-125, 2012.

VALLE, Armando Ettore Do. Administração e liderança nas lojas simbólicas. São Paulo: Madras Editora, 2008. (Ou edição mais recente).

30 novembro 2025

Platão e a Maçonaria

O Mito da Caverna

Você conhece a história do Mito da Caverna de Platão? Se não conhece, tem aqui uma excelente oportunidade. E qual a relação dessa história com a Maçonaria? Os maçons se reúnem com o objetivo de buscar o aperfeiçoamento pessoal por meio do autoconhecimento. Quando sabemos quem somos, quais os nossos defeitos, quais as nossas qualidades.... fica mais fácil determinar aonde queremos chegar. 

O Mito da Caverna. Imagem Meta AI.

Na Maçonaria, no grau de Aprendiz, estudam-se obras de filósofos como Sócrates, Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Thomas Hobbes, Kant, Jacques Maritain, entre outros, com o objetivo de incentivar a autorreflexão. O Mito da Caverna, citado na obra A República de Platão, proporciona excelentes ensinamentos e insigths, além de ilustrar e explicar ideias complexas sobre o conhecimento (natureza, origens e limites). 

Um grupo de pessoas está acorrentada desde a infância no fundo de uma caverna escura. Ali, estão aprisionadas e dispostas de forma que só podem contemplar o fundo dessa caverna. Atrás, no entanto, há uma fogueira e um caminho elevado. Pessoas e objetos passam por esse caminho, e a luz da fogueira projeta suas sombras na parede que está diante delas. Sem jamais ver os objetos reais nem o fogo, a única realidade que conhecem são as distorcidas sombras projetadas, às quais dão nomes, tomando-as como reais.

Um dia, um dos prisioneiros é libertado à força e obrigado a se virar, encarar o fogo e, depois, subir a íngreme saída da caverna. A princípio, a luz o cega e ele sente dor e confusão. Ele preferia voltar ao conforto e à escuridão das sombras, que lhe eram familiares. Fora da caverna, seus olhos se acostumam gradualmente com a luz. Primeiro, ele vê as sombras dos objetos (reflexos na água), depois os objetos em si, e por fim, ele consegue olhar para a fonte de toda a luz e vida: o Sol.

O prisioneiro, agora liberto e portador da verdadeira realidade, sente pena de seus antigos companheiros e decide voltar para a caverna a fim de lhes contar a verdade e libertá-los. Ao voltar para a escuridão, seus olhos demoram para se reajustar e ele acaba tropeçando. Os outros zombam dele, dizendo que a jornada o tornou louco e piorou sua visão. Eles resistem à sua mensagem e, segundo a alegoria, chegam a matá-lo por tentar desacorrentá-los à força.

Comparando com os Níveis de Conhecimento

  • A caverna representa o mundo sensível (opinião), onde vivemos guiados pelas aparências e pelos sentidos.
  • Os objetos reais representam as ideias ou formas (justiça, beleza, bem etc.) ou seja, o verdadeiro conhecimento.
  • O Sol representa a ideia do bem, que é a causa de todo o ser, verdade e inteligibilidade.
Quando nos libertamos das aparências e alcançamos a verdade por meio da razão, passamos a ter o dever moral de guiar os outros à luz, mesmo que sejamos rejeitados. O caminho para nos libertarmos é a "educação", que representa a subida da caverna e que exige esforço, disciplina e orientação da alma para o que é verdadeiro. Nesse percurso, a maçonaria ensina aos seus membros que devem combater o orgulho, os preconceitos e os erros, além de lutar contra a ignorância, a mentira, o fanatismo e a superstição, que são os causadores de todos, ou quase todos, os males da humanidade.

Como Isso Acontece

Recentes descobertas da Neurociência mostram que a mente humana vive aprisionada nos pensamentos automáticos, que podemos considerar como pensamentos disfuncionais (ex.: "não serei amada se eu não fizer o que me pediram", "serei rejeitada se eu disser 'não'" etc.). Tais pensamentos são como "sombras" rápidas e involuntárias que interpretam a realidade de forma tendenciosa. O sofrimento que experimentamos, portanto, não é real, mas sim produto da nossa percepção dos eventos.

Toda crise existencial começa quando nasce a consciência que exige a morte do nosso velho eu — a dissolução das chamadas "crenças centrais" negativas. Isso acontece, na Maçonaria, quando o Aprendiz começa a trabalhar o ego, o que chamamos de lapidar a Pedra Bruta, para alcançar a Luz (Pedra Polida). Essa Pedra Bruta pode ser comparada às ideias profundas e globais que temos sobre nós mesmos, sobre o mundo e o futuro e, muitas vezes, estão agrupadas em temas como desamparo, desamor e desvalor.

Platão anteviu o que hoje a Neurociência confirma: a realidade se comporta conforme a percepção do observador. A capacidade do cérebro de se reestruturar por meio da neuroplasticidade é a base biológica maçônica. O observador desperto, ou seja, aquele que trabalha ativamente em Loja, percebe que o mundo não precisa mudar; ele mesmo é que precisa identificar, avaliar e responder aos seus pensamentos e crenças disfuncionais.

A caverna é mental (formada pelo conjunto das crenças disfuncionais). A saída da caverna é vibracional e só se consegue sair quando há uma reestruturação cognitiva, que ocorre por meio da análise e da modificação. Nesse momento, enxergamos o Sol da verdade (Grande Arquiteto do Universo) e nos damos conta de que ele sempre esteve dentro de nós, apenas aguardando o trabalho de colaboração ativa entre o nosso eu consciente e o eu em construção.

Neuroplasticidade em Ação

Ao escolher ver o mundo sob uma "nova perspectiva" e praticar o "novo comportamento" (esperar calmamente em vez de reagir), passamos a trabalhar ativamente para o enfraquecimento das velhas conexões neurais da "caverna mental" (do Eu desvalorizado) e fortalecemos as novas conexões de Luz em que passamos a entender que o nosso valor é independente das respostas e ações dos outros. E qual é o resultado disso? Menos sofrimento e reações mais eficazes.

Como Sair da Caverna Mental (Exemplo)

O processo prático para sair da "caverna mental" é fazer uso da conhecida Terapia Cognitiva Comportamental (TCC), que pode ser resumida em 3 passos principais:

1. Identificar a sombra (o pensamento automático) - Este é momento em que nos comportamos como o "prisioneiro acorrentado", que só vê a sombra na parede. Exemplo:
    • Evento (o fato neutro): o colega não respondeu à sua mensagem.
    • Sombra (o pensamento automático): ele está me ignorando. Ele não me respeita e acha que o meu trabalho não é importante.
    • Emoção (o sofrimento): sentimentos de raiva, frustração e ansiedade.
    • Comportamento (a reação): mandar uma segunda mensagem agressiva ou se fechar e não falar mais com ele.
2. Descobrir as correntes (crenças intermediárias e centrais) - Aqui você começa a se virar na caverna para o que está por trás da sombra. Você liga seu Pensamento Automático às suas regras de vida mais profundas.
    • Regra (crença intermediária): se eu não for respeitado e levado a sério por todos, serei um fracasso (uma regra de vida que você segue).
    • Essência (crença central - a Pedra Bruta): essa regra, por sua vez, está protegendo uma crença mais profunda, como "Eu sou incompetente" ou "Eu sou desvalorizado".

Conclusão da corrente: o sofrimento não veio da falta de resposta do colega à sua mensagem, mas porque essa falta de resposta ativou a sua crença de que você é desvalorizado.

3. Subir para a Luz (reestruturação cognitiva e neuroplasticidade) - Agora você se torna o Observador Desperto (o Maçom que trabalha) usando a razão para desafiar a sombra e criar uma nova perspectiva.

É fácil? Não! É difícil e exige a lapidação constante da Pedra Bruta, por isso o maçom costuma dizer que é um "eterno aprendiz". Mas é possível.

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. 3ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2021.

CLARK, David A.; BECK, Aaron T. Terapia Cognitiva para Transtornos de Ansiedade: Ciência e Prática. Porto Alegre: Artmed, 2012.

DOBSON, Keith S. Terapia Cognitivo-Comportamental Baseada em Evidências: Guia Prático para Intervenção Efetiva. Porto Alegre: Artmed, 2017.

WRIGHT, Jesse H.; BASCO, Monica R.; THASE, Michael E. Guia Ilustrado de Terapia Cognitiva. Porto Alegre: Artmed, 2008.


20 novembro 2025

Robert Macoy e a Consolidação da Ordem da Estrela do Oriente

Robert Macoy - Meta AI.
Vida e Legado

Robert Macoy nasceu em 4 de outubro de 1815, em Armagh, Condado de Armagh, Irlanda do Norte. Filho de pais escoseses, foi com a família para os Estados Unidos quando ainda era bebê, com cerca de 4 meses. Sua família fixou-se em Nova York.

Macoy recebeu boa educação em Nova York e, em 1837 casou-se com Eliza Ann, com quem teve oito filhos: Robert F., Mary, Clara, William, Sophia, Isabella, Powell e Eliza.  Por volta dos anos 1840, quando estava com cerca de 25 anos, iniciou-se como aprendiz de tipógrafo e, em janeiro de 1848, foi iniciado na maçonaria pela Loja Leganon Lodge n. 191. 

Em 1849, fundou a Macoy Publishing & Masonic Supply Co., ao lado de John W. Simons e, mais tarde, fez parceria com Daniel Sickels e outros. Nesse mesmo ano, lançou seu primeiro livro: The Master Workman. Em 9 de dezembro de 1850 foi elevado ao grau 33 do Rito Escocês. Em 1855, foi eleito Grande Gravador do Grande Comando E. T. e, em 1856, Grande Secretário-Deputado da Grande Loja de Nova York.

Trabalhou com Robert Morris, recebendo seu sistema Constellation em 1868. A partir de então, reorganizou-o e publicou o ritual da Ordem da Estrela do Oriente (Eastern Star) em 1869. Em seguida, publicou dezenas de livros e manuais que reúnem instruções, explicações e textos ritualísticos não secretos, com o objetivo de servirem como guias e materiais de orientação e estudo aos membros da Maçonaria. Esses materiais continham:

  • Procedimentos cerimoniais (como conduzir reuniões, iniciações e elevações);
  • Símbolos e seus significados;
  • Práticas éticas e morais; e
  • Estruturas dos graus.

Em 1874, tornou-se membro do Comando Templário DeWitt Clinton e, em 1883, fundou a Ordem de Amaranth. Faleceu em 1895, deixando um enorme legado à Maçonaria, principalmente pelas publicações que foram, por décadas, amplamente usadas como referências básicas para o culto maçônico.

Atuação na Ordem da Estrela do Oriente

A Ordem da Estrela do Oriente (OES), como já vimos neste blog, é uma organização paramaçônica criada para integrar mulheres e homens ligados à Maçonaria. Sua origem remonta a Robert Morris, que idealiou, na década de 1850, um sistema denominado Constellation of the Eastern Star. Contudo, foi Robert Macoy quem deu forma definitiva à Ordem, garantindo sua expansão e reconhecimento.

Em 1868, Morris transferiu a Macoy os direitos e a responsabilidade de organizar e difundir o sistema. Macoy revisou os rituais, estruturou os graus e publicou, em 1869, o primeiro ritual oficial sob o título The Adoptive Rite, que se tornou a base da Estrela do Oriente moderna. Além disso, estabeleceu regras para filiação, símbolos e ensinamentos, consolidando a Ordem como uma instituição duradoura no contexto maçônico norte-americano.

Macoy faleceu em 9 de janeiro de 1895, no Brooklyn, e recebeu um funeral com ritos maçônicos, sendo sepultado no Green-Wood Cemetery

Sua atuação foi decisiva não apenas na sistematização ritualística, mas também na difusão da Ordem. Como fundador da Macoy Publishing & Masonic Supply Co., ele utilizou sua experiência editorial para imprimir e distribuir manuais e diversos materiais, permitindo rápida expansão da OES pelos Estados Unidos. Mais tarde, criou o Order of the Amaranth, destinado a membros já iniciados na Estrela do Oriente, reforçando seu papel como inovador nos sistemas de adoção feminina.

Graças à sua organização e atuação editorial, Robert Macoy é lembrado como o verdadeiro sistematizador da Ordem da Estrela do Oriente, garantindo-lhe estabilidade e reconhecimento dentro do universo maçônico.

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

FIND A GRAVE. Robert Macoy (1815–1895) – Memorial 89376457. Disponível em: <https://www.findagrave.com/memorial/89376457/robert-macoy>. Acesso em: 20 nov. 2025.

WIKIPEDIA. Robert Macoy. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/wiki/Robert_Macoy>. Acesso em: 20 nov. 2025.

FAMILYSEARCH. Aurora Grata Cathedral – Local dos ritos fúnebres de Robert Macoy. Disponível em: <https://www.familysearch.org/memories/memory/27937650>. Acesso em: 20 nov. 2025.

INTERNET ARCHIVE – LIBRARY OF CONGRESS. Adoptive rite ritual: a book of instruction in the ... Order of the Eastern Star / by Order of the Eastern Star; Macoy, Robert. Nova Iorque: Masonic Publishing Company, 1897. Disponível em: <https://archive.org/details/adoptiveriteritu00orde>. Acesso em: 20 nov. 2025.

NATIONAL MUSEUM OF AFRICAN AMERICAN HISTORY AND CULTURE. Adoptive Rite Ritual: A Book of Instruction / Robert Macoy, 1928. Disponível em: <https://nmaahc.si.edu/object/nmaahc_2011.156.14.9.12ab>. Acesso em: 20 nov. 2025.

MACOY PUBLISHING. Adoptive Rite Ritual 1998 Revised Edition, with SY073. Disponível em: <https://www.macoy.com/OES-Supplies/OES-Books-/-Eastern-Star-Ritual/Adoptive-Rite-Ritual-1998-Revised-Edition-with-SY073>. Acesso em: 20 nov. 2025.

16 novembro 2025

Apologia de Sócrates

Lições para o Maçom Contemporâneo
Sócrates. Copilot.

A Apologia de Sócrates, escrita por Platão, é um dos registros mais marcantes da filosofia ocidental. Trata-se do discurso de defesa proferido por Sócrates em seu julgamento, no ano de 399 a.C., quando foi acusado de corromper a juventude e de não acreditar nos deuses reconhecidos pela cidade de Atenas. Mais do que um texto jurídico, a obra é uma profunda declaração de princípios, revelando a postura ética e intelectual de um homem que dedicou sua vida à busca da verdade e à melhoria moral da sociedade.

Segundo Reale (2004, p. 89), "a Apologia é o testemunho da integridade moral de Sócrates, que preferiu morrer a renunciar à sua missão filosófica". A obra se divide em três partes: a defesa das acusações, a proposta de pena e a despedida. Cada uma delas revela facetas distintas de Sócrates, desde sua habilidade argumentativa até sua coragem moral diante da morte.

A Defesa

Na primeira parte, Sócrates rebate tanto as acusações recentes quanto as antigas. Ele nega ter se ocupado de "coisas celestes e subterrâneas" ou de ensinar a fazer a "razão mais fraca parecer a mais forte" (PLATÃO, s.d.). Em vez disso, explica que sua missão sempre foi questionar e expor a falsa sabedoria das pessoas - tarefa que inevitavelmente lhe trouxe inimizades.

Sócrates recorre ao Oráculo de Delfos, que afirmara não haver homem mais sábio do que ele. Segundo Jaeger (2001, p. 143), "Sócrates interpreta o oráculo como um chamado à investigação filosófica, à busca incessante pela verdade". A partir dessa compreensão, constrói sua sabedoria socrática, baseada no conhecimento da própria ignorância como ponto de partida para o conhecimento, pois ele sabia que nada sabia.

Ele também se defende das acusações de Meleto, mostrando que, se corrompesse os jovens, o faria de forma involuntária — e, nesse caso, mereceria instrução, não punição. Além disso, desmonta a alegação de ateísmo, pois, embora questione certas concepções religiosas, acredita em “seres divinos” (daimons) e afirma que sua missão é dada por Deus: estimular as pessoas a cuidarem da alma e a colocarem a virtude acima de riquezas e status (PLATÃO, s.d.).

A Proposta de Pena

Após ser considerado culpado pela maioria dos juízes, Sócrates mantém a firmeza. Com ironia, afirma que, pelo serviço prestado à cidade, deveria ser recompensado e sustentado no Pritaneu — honra reservada a campeões olímpicos e heróis. Segundo Nunes (2010, p. 57), "a proposta de Sócrates revela sua convicção de que a filosofia é um bem público, essencial à vida da pólis".

Recusa a ideia de exílio, pois, onde quer que estivesse, continuaria filosofando. Para ele, abandonar essa prática seria desobedecer ao chamado divino que orientava sua vida. Embora inicialmente sugerisse pagar 1 mina como multa, aceita a proposta de seus amigos Platão, Críton e outros, oferecendo 30 minas como alternativa (PLATÃO, s.d.).

A Despedida

Na parte final, Sócrates se dirige primeiro aos que o condenaram, advertindo-os de que sua morte não silenciaria as críticas à cidade — pelo contrário, outros surgiriam para cobrar a mesma postura moral que ele exigia. Aos que o absolveram, explica que o “sinal divino” que sempre o guiava não se manifestou durante o julgamento, indicando que a morte não era um mal.

Reflete sobre a natureza da morte, sugerindo dois possíveis cenários: um sono profundo e sem sonhos, que traria descanso total, ou uma mudança de lugar, onde poderia dialogar com heróis e sábios do passado. Como afirma Platão (s.d.),  "ninguém pode fazer mal a um homem bom, nem em vida nem depois da morte", pois o valor de uma vida está em vivê-la justamente.

Ideias Centrais

  • Missão filosófica: questionar crenças, examinar a vida e buscar a virtude.
  • Sabedoria socrática: reconhecer a própria ignorância como caminho para o conhecimento.
  • Coragem moral: manter a integridade mesmo diante da morte (NUNES, 2010).
  • Crítica à retórica vazia: rejeição a apelos emocionais e manipulação em favor da verdade.
  • Concepção da morte: aceitação do desconhecido, considerando que ele pode ser um bem.

Conclusão

A Apologia de Sócrates é mais do que um registro histórico de um julgamento; é um manifesto atemporal sobre a importância da integridade, da reflexão crítica e da busca pelo sentido da vida. Ao se recusar a comprometer seus princípios para evitar a morte, Sócrates nos lembra que a verdadeira coragem não está em viver a qualquer custo, mas em viver fiel àquilo que se acredita ser justo.

Como resume Platão (s.d.), "a vida não examinada não vale a pena ser vivida". Ler a Apologia de Sócrates é confrontar-se com nossas próprias certezas e lembrar que, mais do que respostas prontas, o que nos mantém vivos intelectualmente são as perguntas que ousamos fazer.

Maria Luiza Menquique

Referências Bibliográficas

JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

NUNES, Benedito. O conhecimento filosófico. São Paulo: Ática, 2010.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução eletrônica. Disponível em: <https://www.acropolis.org.br>. Acesso em: 19 out. 2025.

REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. São Paulo: Loyola, 2004.

14 novembro 2025

Francesca Eliza Arundale: Pioneira Espiritual e Maçônica

Espiritualidade e Maçonaria

Francesca Arundale. Meta AI.
Francesca Eliza Arundale nasceu em 1847, na cidade de Brighton, Inglaterra. Seus pais eram Francis Arundale e Mary Ann Arundale (GENI, [s.d.]).

Desde jovem, demonstrou interesse por temas espirituais e filosóficos. Sua formação acadêmica e educacional não é amplamente documentada, mas sabe-se que se envolveu com o movimento teosófico e, posteriormente, com a Maçonaria Mista. Viveu por muitos anos na Alemanha, onde aprofundou seus estudos esotéricos, e em 1902 mudou-se para Adyar, na Índia, onde permaneceu até sua morte, em 23 de março de 1924 (WIKIPEDIA, [s.d.]).

Em 1881, Francesca tornou-se membro da Sociedade Teosófica de Adyar, sendo uma das primeiras mulheres a integrar o movimento. 

Sua residência em Londres, localizada na 77 Elgin Crescent, transformou-se em um centro de atividades teosóficas, servindo como núcleo da Loja de Londres da Seção Inglesa da Sociedade. Nesse ambiente, Francesca cultivou amizades com figuras influentes como Helena Petrovna Blavatsky, fundadora da teosofia moderna, e Annie Besant, líder espiritual, maçom e ativista social. Ambas exerceram forte influência sobre sua trajetória, especialmente Blavatsky, com quem conviveu intensamente. Essa convivência foi registrada por Francesca em sua obra My Guest, H. P. Blavatsky, na qual relata episódios do cotidiano e os ensinamentos da fundadora da Sociedade Teosófica, destacando os profundos aprendizados espirituais que recebeu por meio da vivência direta dos princípios teosóficos (ARUNDALE, 2004, p. 15).

Consta em registros de genealogia que Francesca casou-se com o Reverendo John Kay (GENI, [s.d.]). No entanto, alguns textos a mencionam como "solteirona". Não teve filhos, e adotou seu sobrinho-neto George Sydney Arundale, que foi eleito presidente da Sociedade Teosófica (1934-1945) após o falecimento de Annie Besant, a segunda presidente (SOCIEDADE TEOSÓFICA DE PORTUGAL. [s.s.]).

Em 1896, Francesca foi iniciada na Maçonaria Mista pela Loja n.1 da Grande Loja Escocesa - Le Droit Humain, tornando-se a primeira mulher inglesa a receber essa iniciação. Em 1902, participou da fundação da Loja "Dever Humano" n.6, em Londres, ao lado de Annie Besant. Seu trabalho maçônico foi marcado pela promoção da igualdade de gênero dentro da Ordem e pela expansão da Maçonaria Mista na Índia, com foco na educação e na emancipação feminina.

Na Índia, Francesca atuou como diretora de escolas femininas, como o Central Hindu College Girl's School e a National Girl's School em Mylapore, perto de Adyar. Em 1922, foi nomeada chefe honorária do ramo feminino do Departamento de Educação do Estado de Holkar. Holkar era um antigo estado principesco localizado na região de Indore, no centro da Índia, governado pela dinastia Holkar. Sua nomeação indica reconhecimento oficial por seu trabalho educacional e espiritual voltado à emancipação feminina. Francesca promoveu valores de igualdade, educação e espiritualidade, influenciando a formação de jovens mulheres indianas em um contexto ainda marcado por fortes tradições patriarcais.

Além de Blavatsky e Besant, Francesca teve contato com outras mulheres influentes do movimento teosófico, como Clara Codd, teosofista britânica e defensora dos direitos das mulheres, que também colaborou com a Sociedade Teosófica e participou de atividades Maçônicas e espirituais. Essa rede de mulheres formou uma base sólida para a atuação feminina em espaços iniciáticos e intelectuais no final do século XIX e início do século XX.

Sua vida e obra são testemunhos da força das mulheres que ousaram romper barreiras e abrir caminhos em espaços antes restritos aos homens.

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

ARUNDALE, Francesca Eliza. My Guest, H. P. Blavatsy. Whitefish: Kessinger Publishing, 2004.

GENI. Francesca Eliza Arundale (1847 - 1924). [S.l.: s.n.]. Disponível em: https://www.geni.com/people/Francesca-Arundale/6000000010443184215. Acesso em: 30 out. 2025.

IAPSOP. The Theosophical Review. Disponível em: http://iapsop.com/archive/materials/theosophical_review/. Acesso em 28 set. 2025.

LUTYENS, Mary. Os Anos Do Despertar - Jiddu Krishnamurti. [S.l.: s.n.], 2020. Disponível em: https://pt.scribd.com/document/469716303/Os-anos-do-despertar-Jiddu-Krishnamurti-por-Mary-Lutyens-pdf. Acesso em: 30 out. 2025.

SOCIEDADE TEOSÓFICA DE PORTUGAL. Presidentes Internacionais. [S.l.: s.n.]. Disponível em: https://www.sociedadeteosoficadeportugal.pt/presidentes-internacionais. Acesso em: 30 out. 2025.

THEOSOPHY FORWARD. Arundale, Francesca Eliza (1847-2924). Disponível em: https://www.theosophyforward.com/arundale-francesca-eliza-1847-1924. Acesso em 28 set. 2025.

THEOSOPHY WORD. Arundale, Francesca E. Disponível em: https://www.theosophy.world/encyclopedia/arundale-francesca-e. Acesso em 28 set. 2025.

WIKIPEDIA. Francesca Arundale. Disponível em: 
https://en.wikipedia.org/wiki/Francesca_Arundale. Acesso em: 28 set. 2025.

WIKIPEDIA. Le Droit Humain. [S.l.: s.n.]. Disponível em:
https://en.wikipedia.org/wiki/Le_Droit_Humain. Acesso em: 30 out. 2025.

13 novembro 2025

Sociedade Teosófica - Saiba Mais

Desvende a Sabedoria da Teosofia

Blavatsky e Olcott. Copilot.

Você já parou para refletir sobre as grandes questões da existência? Quem somos nós? De onde viemos? Qual é o sentido de tudo isso? Se você é um buscador — alguém que sente que a vida esconde mistérios mais profundos do que aqueles que vemos na superfície — este convite é para você.

A Teosofia, cujo nome significa "Sabedoria Divina", não é uma religião, mas sim uma busca pela verdade que está no coração de todas as grandes tradições filosóficas e espirituais. É um convite para olhar para dentro de nós mesmos e para o universo com uma nova perspectiva, unindo ciência, filosofia e espiritualidade.

Em 1875, na cidade de Nova Iorque (EUA), foi fundada a Sociedade Teosófica com o objetivo de apoiar essa jornada de descoberta. Os principais nomes por trás dessa iniciativa foram Helena Petrovna Blavatsky, uma escritora e pesquisadora russa, e Henry Steel Olcott, um coronel americano que ofereceu apoio e estrutura organizacional ao movimento. Além de seu papel como cofundador da Sociedade Teosófica, Olcott também era maçom, o que reforça sua afinidade com ideais de fraternidade e aperfeiçoamento humano.

Os três grandes objetivos da Sociedade Teosófica são: formar um núcleo de Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de raça, credo, sexo, casta ou cor; incentivar o estudo comparado de Religiões, Filosofias e Ciências; e investigar as leis não explicadas da Natureza e os poderes latentes no Homem.

Além de Blavatsky, outras mulheres notáveis contribuíram significativamente para o movimento teosófico:

  • Annie Besant: oradora brilhante e ativista social que se tornou a segunda presidente mundial da Sociedade Teosófica. Sua atuação foi fundamental na divulgação dos ensinamentos e no trabalho pela educação e pelos direitos das mulheres na Índia.

  • Radha Burnier: foi a sétima presidente mundial da Sociedade Teosófica, em Adyar (Índia), liderando a organização por muitos anos.

Sociedade Teosófica no Brasil

A Sociedade Teosófica no Brasil (STB) é a Seção Nacional oficialmente ligada à Sociedade Teosófica mundial criada por Helena Blavatsky e Henry Steel Olcott, que mantém fidelidade à sede internacional localizada em Adyar, Chennai, Índia (SOCIEDADE TEOSÓFICA, [s.d.]). O movimento teosófico organizado no país estabeleceu a sua Seção Nacional em 17 de novembro de 1919, na cidade do Rio de Janeiro, com a liderança de figuras como Raimundo Pinto Seidl (REDALYC, 2016; FILOSOFIA ESOTÉRICA [s.d.]). Atualmente, a sede nacional da STB, que coordena as diversas Lojas e Grupos de Estudos espalhados pelo país, opera em Brasília (DF), no endereço SGAS Quadra 603, N. 20, CEP 70200-630.

A afinidade filosófica entre a Teosofia e a maçonaria é historicamente documentada, remontando ao próprio cofundador Henry Steel Olcott que era um maçom iniciado em 1861 (BIBLIOTECA FERNANDO PESSOA, 2018; SOCIEDADE TEOSÓFICA [s.d]). No Brasil, essa interação manifestou-se em um rico intercâmbio em redes intelectuais e esotéricas no início do século XX, com o teosofismo sendo debatido frequentemente em lojas e grupos maçônicos (REDALYC, 2016). A participação de mulheres teosofistas foi crucial, destacando-se figuras como Nâda Glover, que atuou ativamente em cargos de vice-presidência e tesouraria de Lojas no Rio de Janeiro. Embora a Maçonaria Feminina brasileira esteja se consolidando em organizações distintas, a presença e a liderança de teosofistas femininas contribuíram significativamente para disseminação de ideais de liberdade e fraternidade universal, comuns a ambas as sociedades.

Hoje, a Sociedade Teosófica está presente em mais de 60 países. Ela se mantém como um farol para aqueles que buscam um conhecimento profundo sobre os mistérios da vida e da morte; que querem entender a unidade que existe por trás de todas as aparências; e que desejam encontrar um caminho prático para o autoconhecimento e o serviço à humanidade.

Estudar as obras teosóficas — como A Doutrina Secreta Ísis Sem Véu, de Blavatsky — é mergulhar em temas como a Reencarnação, o Karma, a Constituição do Homem e do Cosmos, e o potencial ilimitado do espírito humano. É um convite para transformar-se e, ao transformar-se, ajudar a transformar o mundo.

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

BIBLIOT3CA FERNANDO PESSOA. Maçonaria, Teosofia e Esperanto. 2018. Disponível em: https://bibliot3ca.com/maconaria-teosofia-e-esperanto/. Acesso em: 13 nov. 2025.

BLAVATSKY, Helena Petrovna. A Doutrina Secreta. Tradução de Fernando de Souza Barros. São Paulo: Pensamento, 2006.

BLAVATSKY, Helena Petrovna. Ísis sem Véu. Tradução de Fernando de Souza Barros. São Paulo: Pensamento, 2005.

BESANT, Annie. A Sabedoria Antiga. Tradução de Maria Lúcia de Oliveira. São Paulo: Editora Teosófica, 2007.

BURNIER, Radha. O Espírito da Teosofia. Adyar: Theosophical Publishing House, 1989.

FILOSOFIA ESOTÉRICA. Origem do Movimento Teosófico no Brasil. [s.d.]. Disponível em: https://www.filosofiaesoterica.com/origem-do-movimento-teosofico-no-brasil/. Acesso em: 13 nov. 2025.

HELENA BLAVATSKY BRASIL. Como se deu a formação da Sociedade Teosófica. Disponível em: https://helenablavatsky.com.br/artigos/como-se-deu-a-formacao-da-sociedade-teosofica/. Acesso em: 01 nov. 2025.

IPPB – INSTITUTO DE PESQUISAS PROJECIONAIS. Blavatsky e a Sociedade Teosófica. Disponível em: https://www.ippb.org.br/textos/especiais/mythos-editora/blavatsky-e-a-sociedade-teosofica. Acesso em: 01 nov. 2025.

REDALYC. Maçonaria, religião e culto cívico na atuação de Euclides de Vasconcelos César no Ceará da década de 1920. REHMLAC+, Vol. 8, n. 1, 2016. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/3695/369545832003/html/. Acesso em: 13 nov. 2025.

SOCIEDADE TEOSÓFICA DO BRASIL. Fundadores e Ex-Presidentes. Disponível em: https://sociedadeteosofica.org.br/fundadores-e-ex-presidentes/. Acesso em: 01 nov. 2025.

07 novembro 2025

Maçonaria e Religião

Desmistificando a Maçonaria como Religião

Templo Maçônico. Meta AI.

Quando se ouve falar em "Maçonaria", é comum que muitas pessoas a associem imediatamente a uma instituição religiosa. Essa associação, embora compreensível diante dos rituais e símbolos presentes nas Lojas Maçônicas, não corresponde à realidade. A Maçonaria não é uma religião, tampouco pretende substituir qualquer crença estabelecida.

A Maçonaria é uma fraternidade iniciática, filosófica e filantrópica que busca o aprimoramento moral, intelectual e espiritual de seus membros. Como bem afirmou Albert Pike, um dos mais influentes maçons do século XIX: "A Maçonaria é a ciência que nos ensina a lidar com a vida em busca do bem e do verdadeiro" (PIKE, 1871). Essa perspectiva revela que o foco da Ordem está na construção do ser humano, e não na doutrinação religiosa.

Embora a Maçonaria valorize a espiritualidade, ela não se equipara a uma igreja ou templo religioso. Em instituições religiosas, os fiéis se reúnem para cultuar uma divindade específica, seguir dogmas e praticar rituais próprios de uma tradição. Na Maçonaria, por outro lado, o objetivo é promover o estudo das diversas tradições espirituais e religiosas, incentivando o respeito à pluralidade de crenças.

Tolerância e Liberdade de Consciência

A liberdade de consciência é um dos pilares da Maçonaria. Desde sua fundação moderna, em 1717, a Ordem tem se posicionado como defensora da liberdade religiosa. A Constituição de Anderson (1723), documento fundamental da Maçonaria moderna, afirma: "É mais conveniente abrigar os maçons àquela religião com a qual todos os homens concordam, deixando as opiniões particulares para si mesmos, isto é, ser homens bons e verdadeiros, ou homens de honra e honestidade" (ANDERSON, 1723).

Essa postura é reforçada por Voltaire, filósofo iluminista e maçom, que declarou: "A fé é um livro que se lê com o coração" (VOLTAIRE, 1764). A Maçonaria, portanto, não impõe uma fé, mas convida à reflexão, ao estudo e à compreensão das múltiplas formas de espiritualidade.

O Estudo das Religiões como Caminho de Iluminação

Na Maçonaria, especialmente em suas vertentes mistas e liberais, o estudo das religiões e crenças é uma prática valorizada e incentivada. Seus membros são convidados a conhecer e refletir sobre diversas tradições espirituais — como o Cristianismo, o Judaísmo, o Islamismo o Hinduísmo, o Espiritismo, a Umbanda, o Candomblé entre outras — em um ambiente de liberdade de consciência e respeito mútuo. Essa abordagem pluralista está fundamentada nos princípios iluministas que sustentam a Ordem, como a tolerância, a fraternidade e a busca pela verdade. A presença de maçons de diferentes credos nas Lojas é uma expressão concreta da diversidade espiritual que a Maçonaria acolhe e promove.

Ao estudar diferentes tradições religiosas e filosóficas, os maçons são estimulados a transcender a ideia de que apenas sua religião de origem detém a verdade absoluta. Essa abertura ao conhecimento promove uma profunda transformação interior, favorecendo o desenvolvimento de uma postura mais tolerante, compassiva e universalista. A jornada iniciática maçônica, permeada por símbolos e rituais, é concebida como um processo de autodesenvolvimento e iluminação, no qual o indivíduo é chamado a construir seu próprio templo interior, equilibrando razão e espiritualidade. A tolerância, nesse contexto, não é mera aceitação passiva, mas uma virtude ativa, cultivada com discernimento e responsabilidade moral, como ensinam os princípios da Arte Real.

Benjamim Franklin, também maçom, dizia: "Um homem que não tem ética é um arranha-céu vazio, sem uma base sólida" (FRANLIN, 1779). A ética, a busca pela verdade e o respeito ao próximo são valores centrais na jornada maçônica.

Conclusão

A Maçonaria não é uma religião, mas im uma escola de virtudes, uma via de autoconhecimento e de construção moral. Ao promover o estudo das religiões, da filosofia, da teosofia, das ciências, da alquimia, da astrologia, da astronomia e de tantos outros saberes, ela não busca impor doutrinas, mas libertar o pensamento. Seu propósito é fomentar o respeito mútuo, cultivar a fraternidade entre os seres humanos e estimular o desenvolvimento ético e espiritual de seus membros. Como bem sintetiza Wiston Churchill: "A Maçonaria é uma escola de virtudes, onde aprendemos a ser justos, honestos e tolerantes" (CHURCHILL, apud Cidesp, 2025).

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

ANDERSON, James. Constituições dos Maçons Livres. Londres, 1723.

ANTUNES, Renato. Espiritualidade na Maçonaria: um caminho de autoconhecimento e iluminação. Freemason.com.br, 18 set. 2024. Disponível em: https://freemason.com.br/espiritualidade-na-maconaria-um-caminho-de-autoconhecimento-e-iluminacao/. Acesso em: 07 nov. 2025.

BUCHAUL, Ricardo B. Moral, ética e virtude. Revista Ciência & Maçonaria, São José dos Campos, 2013. Disponível em: https://cienciaemaconaria.com.br/index.php/cem/article/download/14/12. Acesso em: 07 nov. 2025. [cienciaema...ria.com.br]

CIDESP. Frases de Maçonaria de Grandes Pensadores e Reflexões. 2025. Disponível em: Cidesp. Acesso em: 07 nov. 2025. [cidesp.com.br]

CIDESP. Frases inspiradoras de Winston Churchill para refletir. Cidesp.com.br, 31 mar. 2025. Disponível em: https://cidesp.com.br/artigo/frases-winston-churchill/. Acesso em: 07 nov. 2025.

FRANKLIN, Benjamin. The Papers of Benjamin Franklin. New Haven: Yale University Press, 1779.

MAÇONARIA E MAÇON (s). Maçonaria, uma escola de virtudes. Freemason.pt, 11 abr. 2025. Disponível em: https://www.freemason.pt/maconaria-uma-escola-de-virtudes/. Acesso em: 07 nov. 2025.

PIKE, Albert. Morals and Dogma of the Ancient and Accepted Scottish Rite of Freemasonry. Charleston: Supreme Council, 1871.

RODRIGUES, Iomar Araújo; SOUZA, Lourival da Cunha. Maçonaria, religião e os impactos na sociedade. São Paulo: Academia.edu, 2021. Disponível em: https://www.academia.edu/107355247/Ma%C3%A7onaria_Religi%C3%A3o_e_Os_Impactos_Na_Sociedade. Acesso em: 07 nov. 2025.

SOUZA, Fernando Rodrigues de. A questão do sagrado na maçonaria: intolerância, controvérsias e aproximações. Revista de Estudios Históricos de la Masonería Latinoamericana y Caribeña, v.15, n.2, 2023. Disponível em: SciELO. Acesso em: 07 nov. 2025.

VOLTAIRE. Dicionário Filosófico. Paris: Garnier, 1764.


06 novembro 2025

Maçonaria e a Causa Animal

Fraternidade Além das Fronteiras

A maçonaria e a causa animal. Meta AI.

A Maçonaria, como instituição filosófica e fraternal, tem como um de seus pilares o humanismo, que se estende não apenas aos seres humanos, mas também à vida em todas as suas formas. A contribuição com a causa animal — especialmente com animais de rua e abandonados — está alinhada SIM, com diversos princípios maçônicos.

Entre os princípios filosóficos maçônicos há a prática da caridade e da solidariedade, incluindo apoio a abrigos de animais, campanhas de arrecadação e ações de resgate. O respeito à criação e à natureza é um valor fundamental, e muitos maçons entendem que cuidar dos animais é uma forma de honrar esse princípio.

Segundo o Instituto PetBrasil, cerca de 30 milhões de cães e gatos vivem em situação de abandono no Brasil, representando aproximadamente 25% da população total de pets. Em países como Suécia e Alemanha, o abandono é raro devido a políticas públicas eficazes, leis rigorosas e educação sobre posse responsável.

Entre as principais ações realizadas no Brasil estão: campanhas de castração gratuita, feiras de adoção, denúncias de maus-tratos, educação comunitária e a campanha Dezembro Verde, que promove a conscientização sobre o abandono de animais.

As principais ONGs brasileiras de proteção animal são: Ampara Animal; Instituto Caramelo (ex-instituto Luisa Mel); SUIPA; Adote um Gatinho; Projeto Segunda Chance; Instituto Patas Dadas; Natureza em Forma; SOS Pet Alpha entre outras não tão conhecidas, com atuação em municípios ou bairros, e que também precisam do nosso auxílio.

"A verdadeira fraternidade é aquela que não conhece barreiras." — Cidesp
"Onde há amor, não pode haver divisão." — Cidesp
"Podemos julgar o coração de um homem pela forma como ele trata os animais." — Immanuel Kant
"A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana." — Charles Darwin
"Até que alguém ame um animal, uma parte de sua alma permanece adormecida." — Anatole France

Sandra Cristina Pedri

Referências Bibliográficas

BRASIL. Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 1998.

BRASIL. Lei nº 14.064, de 29 de setembro de 2020. Altera a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, para aumentar a pena por maus-tratos a animais. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2020.

INSTITUTO PET BRASIL. Quase 5 milhões de pets estão em situação de vulnerabilidade no Brasil. CNN Brasil, 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/quase-5-milhoes-de-pets-estao-em-situacao-de-vulnerabilidade-no-brasil/. Acesso em: 05 nov. 2025.

MARS PETCARE. Índice de Abandono Animal. Valor Econômico, 2024. Disponível em: https://valor.globo.com/conteudo-de-marca/mars-petcare/. Acesso em: 05 nov. 2025.

CIDESP. Frases Maçônicas Inspiradoras. Disponível em: https://cidesp.com.br/artigo/frases-ma-onicas/. Acesso em: 05 nov. 2025.

SPARTACUS BRASIL. Frases de Proteção aos Animais. Disponível em: https://www.spartacusbrasil.com/l/frases-de-protecao-aos-animais/. Acesso em: 05 nov. 2025.



Maçonaria Feminina: O Despertar da Consciência

Além das Ideologias Recentemente um homem nos enviou uma mensagem (via WhatsApp) que, entre outras frases, escreveu: "É que eu vi que...